Sobre Pseudo-Ceticismo

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Marcello Truzzi

Sobre Pseudo-CeticismoOn Pseudo-Skepticism.  The Anomalist. Artigo reproduzido, por sugstão do autor, do The Zetetic Scholar, #12-13, 1987. Acesso em 24/07/2010. Veja outra tradução em Sobre o Pseudo-ceticismo. Ceticismo Aberto. Acesso em 24/07/2010.

Por Marcello Truzzi, sociólogia da Eastern Michigan University.

Ao longo dos anos, tenho condenado o uso indevido do termo “cético” quando usado para se referir a todos os críticos de alegações anômalas. Infelizmente, o termo tem sido mal aplicado tanto por proponentes quanto por críticos do paranormal. Às vezes os usuários do termo o distinguem entre os assim chamados céticos “leves” contra os céticos “duros”, e eu reavivei em parte o termo “zetético”O termo “zetética” é derivação do verbo grego “zetein”, que significa pesquisar, perquirir, aplicada pelo jurista alemão Theodor Viehweg. Ver: Sobre a Zetética. André Coelho, 05/10/2008. Acesso em 24/07/2010. por causa desta má aplicação. Mas agora percebo que os problemas criados vão além de mera terminologia e a situação precisa ser passada a limpo. Uma vez que “ceticismo” apropriadamente se refere à dúvida ao invés da negação — não-crença no ugar de crença — críticos que tomam a posição negativa no lugar da agnóstica, mas ainda se chamam “céticos” são, na verdade “pseudo-céticos” e têm, creio eu, ganhado uma falsa vantagem usurpando esse rótulo.

Em ciência, o ônus da prova recai sobre o alegador; e quanto mais extraordinária uma alegação, mais pesado é o ônus da prova exigido. O verdadeiro cético toma uma posição agnóstica, que afirma que a alegação não está provada no lugar de descartada. Ele aponta que o alegador não sustentou o ônus da prova e que a ciência deve continuar construindo seu mapa cognitivo da realidade sem incorporar a alegação extraordinária como um “novo fato”. Uma vez que o verdadeiro cético não faz uma alegação, ele não tem nenhum ônus de provar qualquer coisa. Ele apenas continua usando as teorias estabelecidas da “ciência convencional” como de costume. Mas se um crítico afirma que há evidência para refutação, que ele tem uma “hipótese negativa” — dizendo, por exemplo, que um resultado psi aparente era de fato devido a um outro efeito qualquer“saying, for instance, that a seeming psi result was actually due to an artifact”. — ele está fazendo uma “alegação” e, portanto, também tem de suportar uma ónus da prova.

Às vezes, tais alegações negativas dos críticos também são bastante extraordinárias — por exemplo, que um OVNI era na ralidade um plasma gigantesco, ou que alguém em uma experiência psi obtinha pistas por uma habilidade anormal de ouvir tons altos que outros com ouvidos normais não conseguiriam. Nesses casos, o alegador negativo também tem que lidar com um ônus de prova mais pesado do que seria o normalmente esperado.

Críticos que fazem alegações negativas, mas que erradamente se chamam “céticos”, freqüentemente agem como se não tivessem absolutamente nenhum ônus da prova sobre eles, posição que só seria apropriada para o cético agnóstico ou verdadeiro. Um resultado disto é que muitos críticos parecem sentir que só é necessário apresentar para sua contra-alegação um caso fundado em plausibilidade no lugar de evidência empírica. Assim, se pode ser demonstrado que um indivíduo em uma experiência psi pode ter tido oportunidade para realizar uma fraudar, muitos críticos parecem assumir não somente que ele provavelmente fraudou, mas que deve ter fraudado, apesar de poder haver uma ausência completa de evidência de que ele realmente o fez e algumas vezes até mesmo ignorando evidências de uma reputação passada de  de honestidade do indivíduo. Da mesma forma, procedimentos aleatórios impróprios são às vezes assumidos como sendo a causa de altos indicadores psi de um indivíduo, embora tudo que se tenha estabelecido seja a possibilidade de que tal efeito possa ter sido a causa real. É claro, o peso evidencial da experiência é muito reduzido quando descobrimos uma falha em seu projeto que permitiria que um efeito qualquer confundisse os resultados. Descobrir uma oportunidade de erro deveria tornar tais experimentos menos evidenciais e normalmente não convincentes. Isso normalmente contesta a alegação de que a experiência foi “à prova de erro”, mas não contesta a alegação de anomalia.

Mostrar que uma evidência não é convincente não é suficiente para descartá-la completamente. Se um crítico afirma que o resultado era devido à falha X, esse crítico tem então o ônus da prova de demonstrar que a falha X pode e provavelmente produziu tal resultado sob tais circunstâncias. É certo que, em alguns casos, a atração pela mera plausibilidade de que uma falha produziu o resultado pode ser tão grande que quase todos aceitariam o argumento; por exemplo, quando sabemos que alguém conhecido por ter fraudado no passado teve uma oportunidade de fraudar no caso presente, poderíamos concluir com razoabilidade que ele provavelmente também fraudou desta vez. Mas, em muitos casos, o crítico que faz um argumento meramente baseado na plauseabilidade fecha a porta para pesquisas futuras, quando a ciência apropriada exige que sua hipótese também deva ser testada. Infelizmente, a maioria dos críticos parece feliz em sentar em suas poltronas produzindo contra-explicações “post hoc”. Seja qual for o lado verdadeiro da história, a ciência progride melhor através de exames laboratoriais.

Por outro lado, proponentes de uma alegação de anomalia que reconhecem a falácia anterior podem ir longe demais na outra direção. Alguns argumentam, como Lombroso quando defendeu a mediunidade de Palladino, que a presença de perucas não nega a existência de cabelos de verdade. Todos nós devemos lembrar de que a ciência pode nos dizer o que é empiricamente improvável, mas não o que é empiricamente impossível. Evidência em ciência sempre é uma questão de grau e raramente é absolutamente conclusiva. Alguns proponentes de alegações de anomalias, como alguns críticos, parecem pouco dispostos a considerar evidências em termos probabilísticos, agarrando-se a qualquer fio solto como se o crítico tivesse que contestar todas as evidência como se fossem uma alegação a parte. Tanto críticos quanto proponentes precisam aprender a pensar na adjudicação em ciência mais como um encontro nos tribunais, imperfeita e com graus variados de prova e indícios. Verdade absoluta, como justiça absoluta, raramente é alcançável. Nós podemos apenas fazer o nosso melhor para nos aproximar delas.

OBSERVAÇÕES

Marcello Truzzi é o autor da famosa frase alegações extraórdinárias requerem evidências extraordinárias, que alguns atribuem erroneamente a Carl Sagan. Ambos foram grandes nomes da boa ciência e, portanto, defensores do ceticismo agnóstico e construtivo. Ambos também pagam, num paralelo com vários outros expoentes religiosos e políticos, pelos pecados de seus auto-proclamados seguidores, que distorcem suas idéias para defender limitações e preconceitos.

O pseudo-ceticismo, como tudo aquilo que não conflita diretamente com o paradigma dominante, é tolerado com omissão pelo Conhecimento Estabelecido, que aplica-lhe, quando muito, advertências fraternais.

Um dos méritos do texto de Truzzi é, com elegância, transcender essa barreira. Com suas contribuições ganha a ciência, o conhecimento e a sociedade. Saiba mais sobre pseudo-ceticismo em Metaceticismo.

FICHAMENTO

Data: 19870000.

TAGS: Ciência.

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