Popper x Kuhn: Considerações sobre a ciência

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Trabalho elaborado pelos professores Mario Cella e Giovanni Pelella, do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão. Numeramos os parágrafos para facilitar posterior referência.

POPPER X KUHN: CONSIDERAÇÕES SOBRE A CIÊNCIAPopper x Kuhn: Considerações sobre a ciência. Mario Cella e Giovanni Pelella. Departamento de Filosofia, UFMA. Acesso em 01/10/2010.

1. INTRODUÇÃO

1.1. “O últimos dez ou quinze anos testemunharam um acentuado despertar no Brasil para a importância da pesquisa científica, e a inauguração daquilo a que se poderia razoavelmente denominar de um novo movimento”. . . “enquanto os próprios brasileiros estão talvez, em sua maioria, inconscientes da importância e do potencial da atividade em seu meio por um grupo modesto de aplicados pesquisadores”(1)

1.2. A atualidade das palavras do autor anônimo do século passado põe o acento sobre a existência de uma nova postura em relação à investigação científica, mormente quando o establishment educativo concede às qualidades teatrais da retórica e da esperteza, preferência sobre o mérito sólido baseado na pesquisa original.

1.3. A situação em que se encontrava o “grupo modesto de aplicados pesquisadores” em fins do século passado no Brasil, parece prenunciar a proposta que, alguns anos depois, em Viena importantes estudiosos europeus formularam para enfocar um novo posicionamento frente à filosofia da ciência, com relação às várias postulações filosóficas anteriores, aliadas às novas concepções lógico-matemáticas e de física teórica.

2. A CIÊNCIA E O CÍRCULO DE VIENA

2.1. Inspirados nas idéias de Schlick, um grupo de cientistas começou a se reunir informalmente deste 1927, em Viena, com a preocupação de discutir sobre o conhecimento e investigar a razão pela qual a filosofia tradicional não constituía um corpo de conhecimentos admissíveis e a importância da lógica matemática e da física teórica e prática.

2.2. O conhecimento, seguindo eles, tinha como papel fundamental descrever a experiência, e, para tal tarefa, deveria utilizar instrumentos analíticos: a lógica e a matemática. Desta forma, estas e a ciência empírica abarcariam todo o domínio do conhecimento possível.

2.3. Por isso a proposta da metafísica tradicional de conhecer a essência das coisas reais seria contraditória, pelo fato de encerrar somente expressões sem significado de conhecimento, em desacordo com as regras lógicas, e por isso, nem verdadeiras nem falsas.

2.4. Como conseqüência desta posição, consideram que a filosofia tradicional conseguiu apenas construir um “projeto impossível”, visto que suas teses são vazias de conteúdo empírico.

2.5. Seguindo a posição do empirismo clássico pela qual todo conhecimento é fatual, a maioria do grupo achou insuficiente a concepção de proposições gerais da lógica e matemática, estabelecidas indutivamente a começar de fatos empíricos particulares. Vários membros do Círculo, contudo, seguindo Carnap, aceitavam o raciocínio indutivo. Todos concordavam, porém, que a matemática desenvolvia-se no âmbito da linguagem, portanto, nada tendo a ver com a indução. O avanço verificado nestas ciências e o desenvolvimento da teoria dos conjuntos levou aqueles pensadores a buscar um novo embasamento para a cientificidade destes domínios.

3. VERIFICABILIDAE COMO CRITÉRIO DE SENTIDO

3.1. Inspirado nas idéias de Wittgenstein do “Tractatus logico-philosophicus”, que tentava reconstruir a filosofia a partir da nova lógica, o Círculo de Viena defendia ser o mundo um conjunto de fatos simples e seu estado atual, um conjunto de fatos atômicos que realmente ocorrem. Assim toda proposição terá sentido apenas enquanto conhecimentos simples são empíricos, é evidente que o significado de uma proposição é equivalente ao conjunto dos dados empíricos imediatos. É o princípio de verificabilidade. Como conseqüência evidente, as proposições lógico-matemáticas, por serem desprovidas de conteúdo empírico, não são fatualmente significativas: são apenas verdades determinadas por sua estrutura sintática e, portanto, convencionais. E ainda, a filosofia tradicional é irrelevante teoricamente, por não se fundamentar em conhecimento científico e empírico do mundo.

3.2. Com a formulação do princípio de verificabilidade, os empiristas lógicos achavam ter encontrado um critério discriminativo entre ciência e filosofia tradicional, dando ênfase à metafísica, considerando as proposições desta como sinais vazios de conteúdo, e reservando àquela o ‘status’ de conhecimento fatual.

3.3. Mas logo este princípio mostrou seus limites, tornando-se inaceitável. Se o objetivo das ciências é a formulação de leis gerais, então podemos afirmar que toda proposição científica é uma teia de proposições protocolares; isto é, claramente insatisfatório, visto que uma série finita, por maior que seja, nunca poderá conferir a marca da verdade a uma lei geral.

3.4. Estas posições foram alteradas em 1936/7 pela contribuição de um artigo de Carnap: “Testabilidade e Significado”. Ele propõe como critério a possibilidade de confirmação gradual. Uma proposição científica seria mais ou menos aceita pela quantidade de evidência empírica ou pelo grau de confirmação disponível. A partir daí tenta construir uma lógica indutiva baseada na noção de grau de confirmação de uma hipótese.

4. CRÍTICA À VERIFICABILIDADE

4.1. Na revisão crítica do princípio de verificabilidade, o filósofo vienense Karl R. Popper (1902-) desenvolveu um papel destacado. Embora mantendo contato com alguns membros do Círculo de Viena e sofrendo influência marcante de Carnap, nunca fez parte dele nem foi impedido de tecer sérias críticas às posições deste. E a primeira delas é exatamente contra o trabalho mais árduo de Carnap: a construção de uma lógica indutiva.

4.2. Galileu postulava que a sua ciência fosse verdadeira em todas as possíveis aplicações sem limitações espaço-temporais.

4.3. Sentindo a necessidade de dar embasamento filosófico e resolver a primeira grande objeção de como afirmar leis científicas gerais apoiando-se em experiências inúmeras, mas finitas, Francis Bacon desenvolveu um trabalhoso sistema de tabelas de presenças e ausências, tentando justificar a indução como generalizadora. Ele próprio, contudo, admitiu não ter suficiente para a fundamentação da física galileana.

4.4. Mais tarde Stuart Mill propõe cinco métodos que representam a tentativa mais elaborada de catalogação de métodos e técnicas indutivas.

4.5. Assim, mesmo com esta dificuldade, a ciência galileana ia-se afirmando ao longo dos séculos.

4.6. No século XVII, na Inglaterra, a valorização da experiência foi mais acentuada com o empirismo de Locke, Berkeley e Hume.

4.7. No continente europeu, em contraposição, vinha se reforçando o racionalismo com Descartes, Leibniz, Malebranche.

4.8. Mas, apesar destas duas posições parecerem completamente opostas: os primeiros valorizavam exclusivamente a experiência por ser o único veículo de encontro entre sujeito e objeto; os últimos sustentavam haver um conhecimento “a priori” do objeto, pela simples atividade intelectual, ambas convergiam num ponto fundamental: enquanto a Idade Média privilegiava a metafísica como ciência do objeto, passando a não haver distinção entre filosofia e ciência a se ocupar do objeto. Desta forma, empirismo e racionalismo são filosofias da consciência: para os primeiros ela é formada de elementos provindos de fora através das sensações; para os últimos é autônoma, mas para ambos o sujeito é o centro do conhecimento.

5. DERROCADA DA INDUÇÃO

5.1. David Hume, dos empiristas ingleses, foi o crítico mais feroz da indução.

5.2. Como Newton tinha tido a sensação de ter descoberto as leis que regulam esta imensa máquina é que o universo, Hume esforçava-se para encontrar leis que regulassem o homem no seu comportamento íntimo.

5.3. Como não há lei lógica que nos permita passar de “n” casos observados para totalidade – poderemos sempre pensar que encontraremos o caso “n+1” que não satisfaça à lei – a indução não tem fundamento lógico e portanto todas as ciências empíricas que se utilizam da indução não têm fundamento. Por isso Hume afirmava que a ciência era indutiva, mas não racional.

5.4. Em meados do século XIX estas duas correntes desembocam na síntese de Kant, porque ambas são filosofias da consciência.

5.5. Para Kant o homem constitui o objeto através do material que vem das sensações, o qual é organizado através das categorias inatas.

5.6. Não se sabe como é o mundo em si: só conhecemos os fenômenos; sobre o n número não podemos afirmar nada porque ele nos é inacessível. A ciência se preocupa não com o objeto, mas com o modo de conhecê-lo, enquanto que à filosofia cabe estudar a ciência.

5.7. No início do nosso século o círculo de Viena se prôpos a tarefa gigantesca de reformular a filosofia frente ao avanço da ciência e da física teórica principalmente.

6. O CRITÉRIO DE DEMARCAÇÃO DE POPPER

6.1. Karl Popper, retomando esta problemática, concorda com David Hume na crítica à indução.

6.2. Na verdade o problema poderia ser anunciado da seguinte maneira: é possível afirmar a verdade ou validade de proposições universais, como os enunciados das ciências empírica?

6.3. Objetivamente os anunciados das ciências empíricas são o resultado de “n” observações particulares ou repetição de um número grande de experimentos iguais. Por isso os enunciados empíricos são formados pela soma de “n” enunciados singulares. Justificar então as inferências indutivas não é outra coisa senão encontrar um critério, um princípio, uma regra, em suma, que nos auxilie a colocar os enunciados singulares em forma lógica capaz de justificar o salto par a inferência indutiva.

6.4. A busca deste princípio é de extrema importância para o método científico e para a verdade de suas teorias. Sem este critério, suas afirmações poderiam ser consideradas puras criações do espírito humano.

6.5. Mas o princípio da indução não pode ser uma verdade lógica ou analítica, assim como uma tautologia. Se tal existisse, todas as inferências poderiam ser obtidas por simples transformação lógica e portanto passariam a pertencer à dedução.

6.6. Haverá, então, de ser um enunciado sintético, isto é, que admite sua negação sem se constituir numa contradição. Deverá ser, por isso, um princípio, por sua natureza universal, mas alicerçado sobre enunciados singulares decorrentes da experiência.

6.7. Para justificar estes enunciados que dariam suporte lógico ao princípio de indução, deveríamos invocar novamente este mesmo princípio de que estamos procurando sua justificação anterior, numa ordem mais elevada e assim por diante.

6.8. É impossível deste modo achar uma justificativa para a indução porque remete a uma regressão infinita.

6.9. O único critério admissível na ciência para K. Popper é o método dedutivo e a ciência é racional mas não indutiva.

6.10. Os neo-positivistas e os integrantes do Círculo de Viena defendiam com afinco o princípio segundo o qual o método de verificação era equivalente ao sentido de uma proposição.

6.11. Mas acontece que todas as leis científicas de forma ” x (Ax à Bx) perderiam todo e qualquer sentido segundo o princípio acima citado.

6.12. Como poderíamos verificá-las todas? Poderíamos verificar alguns casos, aqui e agora, mas não poderíamos alcançar todos os casos, sem limitações espaço-temporais. Por isso, os neo-positivistas destruíram a metafísica porque esta continha apenas porposições vazias de sentido, sem conteúdo empírico, mas prejudicaram também a própria ciência, pela impossibilidade de aplicar o critério de verificação a todos os casos possíveis das leis científicas.

6.13. Conclui, portanto, Popper que o único caminho que resta à ciência é a prova dedutiva de suas teorias. Como poderemos submeter uma teoria à prova? Popper aponta quatro caminhos, através dos quais se pode conseguir tal tarefa.

6.14. Em primeiro lugar, comparando logicamente as conclusões, umas com as outras, a fim de conhecermos se a teoria é internamente coerente.

6.15. Em seguida, procurando conhecer sua forma lógica para saber se é uma teoria empírica ou se é tautológica.

6.16. Depois pode-se comparar a teoria com outras, para se aquilatar se esta se afirma como uma conquista científica.

6.17. Finalmente, temos as provas da teoria através das aplicações empíricas que podem ser deduzidas nela.

6.18. Se a mesma resistir às provas e não for substituída por outra no decurso do avanço científico, poderemos dizer que ela foi corroborada pela experiência.

6.19. Como se pode observar no parágrafo acima, todo este processo é absolutamente dedutivo: não afirmamos que seja possível concluir com a verdade da teoria, supondo verdadeiros os enunciados singulares verificados.

6.20. Neste ponto cabe uma pergunta: se a indução é rejeitada, qual será o critério discriminativo entre ciências empíricas e sistemas metafísicos?

6.21. Este critério que Popper chama de demarcação é o problema mais importante da teoria do conhecimento.

6.22. Segundos os positivistas, era lícito admitir científico apenas conceitos que proviessem diretamente da inferência, isto é, que fossem logicamente redutíveis a impressões da experiência sensorial, como percepções, lembranças etc. É evidente então, que o critério de demarcação para os positivistas era o da indução lógica.

6.23. Wittgenstein sustentava que todo enunciado significativo devia ser logicamente redutível a enunciados elementares. Mas as leis científicas não podem ser reduzidas aos fatos singulares da experiência; portanto, o critério da significatividade conduz à rejeição de todas as leis naturais.

6.24. Já M. Schlick tinha resumido de maneira brilhante o assunto: “o problema da indução consiste em buscar uma justificação lógica dos enunciados universais acerca da realidade. Reconhecemos como Hume que esta justificação não existe”.(2)

6.25. Antes de apresentar o seu critério de demarcação, K. Popper acha oportuno esclarecer algumas questões preliminares para a perfeita compreensão do problema. Que será ciência empírica?

6.26. Popper considera que a ciência será tal se responder às seguintes exigências:

6.27. Primeiramente ela deve ser um sistema sintético para poder apresentar um mundo possível.

6.28. Em segundo lugar, deverá satisfazer ao critério da demarcação, para representar exatamente o mundo da experiência e não se confundir com a metafísica.

6.29. Enfim, deve ser diferente de outros sistemas e se apresentar como o melhor do nosso mundo da experiência.

6.30. Se, como foi visto anteriormente, a indução não existe e portanto é impossível verificar enunciados infinitos singulares para dar suporte a teorias universais, é evidente que estas nunca poderão ter sua verificação empírica. Logo, segundo Popper, o critério da demarcação não será o da verificabilidade, porque há muitíssimos enunciados não verificáveis, sejam eles universais ou singulares, mas a falseabilidade do sistema: em outras, um sistema científico não poderá nunca ser validade em sentido positivo, mas é possível refutá-lo pela experiência.

6.31. Há, segundo Popper, uma assimetria entre o critério de verificabilidade dos neo-positivistas e o da falseabilidade; este é o resultado da forma lógica dos enunciados universais.

6.32. Todo e qualquer enunciado universal não pode ser derivado de enunciados singulares, conforme a crítica que foi vista acima, mas um único contra-exemplo obrigará à reformulação de nosso enunciado universal.

6.33. Curiosamente, é através do “modus tollens”, emprestado da lógica dedutiva, que podemos concluir com a falsidade de enunciados universais a partir da verdade de enunciados singulares.

6.34. As leis científicas portanto – enunciados gerais – não podem fornecer a certeza absoluta de suas afirmações: não têm a força das tautologias que, pela simples equivalência lingüística, conseguem comunicar os valores de verdade; são fecundas porém pela contribuição da experiência e neste campo o puro conhecimento lingüístico é insuficiente.

6.35. As leis científicas pretendem afirmar sempre além de um número “n” de enunciados singulares e não há regra lógica que justifique tal processo. Afirma Popper serem as leis científicas sempre plausíveis e estas terão seu uso aproveitado até o surgimento de um contra-exemplo que nos force a revê-las.

6.36. Para ele o conhecimento científico é hipotético. As leis científicas são enunciadas gerais que foram corroborados por grande número de casos singulares.

6.37. A história nos mostra que o homem desde o início dos tempos tem sempre tentado encontrar uma explicação para o mundo onde ele se acha inserido. Estas explicações foram sempre mais rico e conclusivo possível. Mas este modelo está repleto apenas de conjecturas, não de verdades definitivas pela impossibilidade e pela inexistência de uma regra lógica capaz de justificar a passagem de um número, por maior que se considere, de enunciados singulares até os enunciados universais.

6.38. A verdade é um horizonte que está à nossa frente, que orienta o nosso caminho e nossos esforços, mas é um ideal e como tal inatingível. Se assim não fosse, deixaria de ser ideal e a ciência perderia o seu motor interno que a faz progredir e fornecer o estímulo para a pergunta.

6.39. Qualquer nova descoberta é submetida a testes, experimentos, perguntas. Aquilo que é novo é avaliado, esmiuçado para descobrir possíveis erros. O teste é exatamente a busca incansável para depurar a ciência dos erros e eliminá-los.

6.40. A ciência não é a fotografia da realidade: com esta posição Popper se torna crítico de Galileu; ela é uma aproximação constante e contínua da realidade, que se tornará sempre mais perfeita na medida das pesquisas, dos testes aplicados e da eliminação dos erros cometidos.

6.41. Galileu afirmava ser a ciência verdadeira: ela poderia captar o mundo da experiência exatamente como ele é; Popper reconhece que não se pode chegar a tal conclusão: ela é apenas um conjunto de conjecturas. Ambos porém concordam que ela é racional, objetiva e nomotética.

6.42. Portanto, o único critério aceitável de demarcação entre ciência empírica e não empírica é o da falseabilidade. Um enunciado será empírico quando puder ser falseado; quando isto não puder acontecer, ele será não empírico.

6.43. Os enunciados da matemática e da lógica não são falseáveis e por isso são não empíricos. O mesmo se dá com os enunciados da metafísica e da teologia: embora se perguntem sobre o mundo, não são falseáveis e por isso são não empíricos. E Popper vai mais além: todos os enunciados empíricos são hipotéticos, inclusive os enunciados singulares. Reconhece porém que às vezes os cientistas formulam suas teorias, que deveriam ser empíricas e portanto seus enunciados falseáveis, de forma metafísica, isto é, tornando-as imunes do falseamento, protegendo-as como inúmeros escudos para pô-las a salvo de testes perigosos que poderiam comprometê-las completamente.

6.44. O cientista ideal de Popper é aquele que procura, busca o contra-exemplo para obter o melhoramento, o progresso e aprimoramento da teoria. É aquele que formula suas teorias não partindo de enunciados singulares e por meio de indução conseguir leis universais, mas iniciando da observação de enunciados singulares através da imaginação. Revela-se assim sua filiação Kantiana.

6.45. A imaginação seria um tipo de categoria que, ordenando as informações singulares, dá condições ao cientista de formular sua teoria que deverá ser posteriormente testada e ir em busca de contra-exemplo para seu próprio progresso.

7. A VISÃO DA CIÊNCIA EM KUHN

7.1. Thomas Kuhn é um norteamericano, historiador da ciência, que não concorda com a imagem de desbravador do homem de ciência, de mente aberta em busca da verdade.

7.2. Seria ingênuo pensá-lo e a história nos tem dado incontáveis exemplos, que o cientista se defronte com os fatos objetivos sem preconceitos, que os deixe fora da porta.

7.3. Este seria o ideal, mas na realidade não acontece. Normalmente o cientista dá mostras e age como se já conhecesse os pormenores ou alguns dos resultados que possam advir de sua investigação.

7.4. O êxito imediato é fator de satisfação pessoal e de estima entre os colegas; mas se este não aparecer, então ele envidará todos os esforços para proteger suas idéias, tentando colocar os fatos e amoldá-los à sua teoria. Resistência a toda e qualquer novidade e um comportamento quase geral que encontra sua justificação no fato de estarmos arraigados às nossas convicções, às nossas crenças, ao status quo, seja porque é mais cômodo, seja porque nos dispensa de empreender esforços para tentar captar mais profundamente aquilo que se nos afigura merecedor de ulterior pesquisa e explicação.

7.5. A formulação de uma hipótese científica passa por uma primeira fase que Kuhn chama de pré-paradigmática: há várias tentativas e vários esforços em diferentes direções.

7.6. Este é o período da dispersão intelectual: cada cientista trabalha por sua conta, envolto num mundo conceitual só seu: ele tem perante si verdadeiros enigmas que reclamam uma solução, até que será possível encontrar um paradigma, isto é, uma teoria associada a certas aplicações padrão.

7.7. Este paradigma passa a merecer o consenso dos demais pelos resultados obtidos e pela solução de grande parte dos enigmas de que se procurava a chave.

7.8. Um cientista será considerado tal, somente quando vinculado a um paradigma pré-estabelecido.

7.9. Mas este consenso exerce um papel fundamental na ciência. Somente quando há um paradigma é que toda a força da investigação fica voltada num só sentido para esgotar todas as possibilidades e aplicações e somente neste instante é que é possível o aparecimento de alguns fatos que não se coadunem com a teoria.

7.10. É evidente que um cientista isolado que enfrentasse tais dificuldades, não as consideraria devidamente, culpando sempre a imperfeição de sua teoria ou observação e medições incorretas.

7.11. Não obstante a adesão dogmática seja um fator de desestímulo para quaisquer inovações, é exatamente neste contexto que há a maior chance de aparecerem fatos estranhos e serem levados na devida conta.

7.12. Obtido o consenso da comunidade, a ciência paradigmática ou assim chamada normal passa a ser objeto de estudo em escolas e universidades e o sucesso obtido na solução dos problemas e a grande harmonia de opiniões em torno da teoria desencorajam quaisquer possibilidades de surgirem objeções e de haver posições críticas a respeito dela.

7.13. É este o cientista normal, afirma Kuhn, preocupado em resolver os problemas, as dificuldades que aparecem na teoria.

7.14. Não existe um problema avulso; um problema só se caracteriza como tal quando está em contraste com o contexto que o gerou; é algo desconhecido que não encontra seu lugar adequado no esquema previamente estabelecido.

7.15. O cientista normal adere a uma teoria sem discussão, dogmaticamente, aniquilado intelectualmente pelo sucesso da mesma e até porque ainda não tem capacidade suficiente para criticá-la.

7.16. O sucesso desta faz com que ele se conscientize sempre mais de sua acuidade mental e da bondade de sua teoria. Neste momento ele passa a ser seu defensor, mostrando-se altamente conservador e racionário a quaisquer tentativas de mudanças.

7.17. O cientista normal não é o cientista – pesquisador de Poper: ele protege sua teoria, eliminando do caminho todos os possíveis obstáculos que possam pôr em dúvida sua eficácia, colocando de lado algum problema em desacordo com a teoria, na esperança de conseguir instrumentais mais aperfeiçoados, medições mais exatas etc. . . para ultrapassar o obstáculo.

7.18. Mas os pardigmas não são eternos, eles se esgotam quando os problemas insolutos aumentam, avolumam-se sem haver nenhuma perspectiva de enquadrá-los no esquema.

7.19. Neste momento, Kuhn afirma, o cientista deixa de ser reacionário e passa a revolucionário pela insatisfação de não ter podido resolver os enigmas; neste momento muda de direção em busca de um novo paradigma que consiga colocar ordem em seus “puzzles”.

7.20. O cientista normal, nesta análise histórica, muito se contradiz com a imagem do desbravador do desconhecido, inventor de novas teorias; pelo contrário, afirmando-se um paradigma, ele luta para obter a solução dos problemas mais difíceis. Este é um dos modos de progresso da ciência.

7.21. Já que o mundo é muito complexo para ser estudado sem uma meta, o paradigma fornece esta meta e por isso o pesquisador deixa de ser um explorador do incógnito e passa a desenvolver todos os esforços para alcançar e concretizar o conhecimento apenas vislumbrado.

7.22. E é nessa conjugação de esforços para esgotar o paradigma em todas as suas possibilidades que algumas vezes a teoria não obtém o êxito desejado: aparecem elementos ‘subversivos’ que não se coadunam com o contexto.

7.23. O aparecimento de fenômenos não previstos tem um poder destruidor de acelerar a busca de outro paradigma. Assim as velhas dificuldades, já assentadas no antigo esquema, voltam a ser resolvidas num conjunto de elementos novos, segundo regras novas.

7.24. O progresso da ciência depende do fato da atividade do cientista não ter conseguido resolver seus problemas. Se seu trabalho tivesse sempre êxito esperado, seria impossível exigir qualquer possibilidade de inovação. De fato, se não houvesse um projeto já pronto e acabado – o paradigma – e se este não se defrontasse freqüentemente com anomalias, não se poderia esperar uma mudança de rumos e a iniciação de um novo projeto.

8. CONCLUSÃO

8.1. Kuhn concorda com Popper e Hume que a indução não existe, a ciência não pode ser indutiva, mas ele afirma ainda que ela não é racional: de fato a história nos mostra que as teorias e suas aplicações geralmente são aceitas não tanto por sua coerência lógica ou embasamento empírico, quanto por razões sociais, pelo consenso adquirido na comunidade científica e portanto impostas aos alunos e incutidas sem qualquer possibilidade de crítica.

8.2. Quando algum elemento subversivo aparece para perturbar a tranqüilidade paradgmática, o cientista reage perplexo: sua aceitação da teoria, sua prática e sua reação a ela se dão por razões nada racionais; há sempre componentes psicológicos, sociais que predominam para determinar sua escolha.

8.3. Para Popper o cerne da ciência é a crítica, para Kuhn é o dogma, o paradigma.

8.4. Popper defende a ciência como a busca incessante de anomalias e a elaboração contínua de contar – exemplos para abater as teorias vigentes. A atividade científica se dá nas fronteiras do conhecimento e se propõe resultados capazes de alterar nossa representação da natureza.

8.5. Kuhn, por seu lado, considera a ciência normal como a atividade natural do cientista: consiste na acumulação de noções, classificação, consitrução de equipamentos etc. . . Este trabalho se desenvolve ao amparo de teorias estabelecidas que contribuem para o avanço tecnológico do homem.

8.6. Obviamente, a posição de Kuhn revela seu aspecto predominante quantitativo da atividade científica, enquanto o critério de falseamento adotado por Popper, seria a única postura digna e capaz de produzir resultados científicos.

8.7. Somos tentados então a concluir que a ciência normal será a regra da atitude científica, já que ela é praticada na maior parte dos casos pelo maior número de cientistas e a atitude popperiana constituiria a exceção, pelo fato de exigir a elaboração de testes cruciais para subverter e mudar as teorias estabelecidas. (3)

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) Anônimo: 1883. The present state of science in Brazil. Science, I: 211-214. Revista Ciência e Cultura – S. P. vol. 37 n.4, awbril 85. Pág. 573.

(2) Schlick, M. – Naturwissenschaften. 1931 p. 156.

(3) Revista Ciência e Cultura, SP. Vol. 37, n. 4, abril 85 pág. 574 e seg.

TEXTOS CONSULTADOS

POPPER, K. A lógica da pesquisa científica, S. Paulo, Cultrix, 1974.

KUHN, T.S. A estrutura das revoluções científicas, S. Paulo, Perspectiva, 1975.

POPPER, K. Conjecturas e refutações, Brasília, Univ. Brasília, 1981.

STEGMÜLLER, W. A Filosofia Contemporânea, S. Paulo, Victor Civita, 1980.

CARNAP, R. Testability and Meaning in Philosophy of Science, 3: 420-68, 1936; 4 pp: 1-40, 1937.

OBSERVAÇÕES

Entendemos que a compreensão adequada da visão de cientificidade de Karl Popper e suas profundas diferenças em relação a abordagem de Thomas Khun é requisito básico para qualquer trabalho que se pretenda científica. O artigo fornece um rico e útil panorama para iniciar os estudos sobre esse assunto.

A ufologia hoje, segundo nossa visão, se encontra estagnada na fase pré-paradigmática (7.5, 7.6 e 7.7.) pela falta de metodologia uniforme e tolerância indiscriminada. É importante definir um paradigma (7.6, 77 e 7.9) e, para isso, é preciso concentrar esforços no sentido de formular teorias que satisfaçam os critérios de cientificidade (6.14, 6.15, 6.17, 6.17, 6.26, 6.27, 6.28, 6.29 e 6.30), considerando, é claro, os atuais limites do critério paradigmático de demarcação (6.21, 6.22, 6.31 e 6.43) – veja Ufologia.

Acreditamos, por fim, que muitos críticos de fenômenos fortianos, que se imaginam cientistas desbravadores de Popper (6.45) são, na verdade, apenas cientistas normais de Khun na sua pior manifestação, pois desconhecem ou ignoram as limitações naturais daquilo que defendem e se submetem (7.15 e 7.17) – veja mais em Conhecimento Estabelecido.

FICHAMENTO

Data: 20101001.

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