Kenneth Arnold

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Na terça-feira, 24 de junho de 1947, o aviador e empresário americano Kenneth A. Arnold observou uma esquadrilha de nove objetos inclassificáveis sobre as montanhas Cascade, em Washington. Em poucos dias, a notícia correu os cinco continentes. Encorajados por seu testemunho, um grande número de avistamentos envolvendo objetos estranhos passaram a ser relatados. Tinha início a era moderna dos Discos Voadores e o embrião do campo de pesquisa dedicado a estudá-los e compreende-los, a Ufologia.

Algum tempo após o avistamento, a Força Aérea demandou informações ao piloto, que se apresentou e descreveu os estranhos fatos ocorridos. Sua apresentação foi encaminhada nos seguintes termos:Biografia no Original. Project 1947. Acesso em 24/06/2010.

Eu naci em 29 de março de 1915, em Subeck, Minnesota. O nome do meu pai era Edward Erb Arnold; o nome de solteira de minha mãe era Bertha E. Barden. Eu vivi em Minnesota até completar seis anos de idade, quando minha família mudou para Scobey, Montana, onde estabeleceu residência. Meu avô, Roland C. Arnold também se estabeleceu em Scobey, Montana, e alcançou significativa proeminência nos círculos políticos junto com Burton K. Wheeler, o famoso senador do Estado.

Frequentei a escola e a universidade de Minot, Dakota do Norte. Tornei-me escoteiro aos doze anos de idade e conseguí o grau de Águia antes dos quatorze. Meu Escoteiro-chefe foi H. H. Prescott, agora comissário regional dos Meninos Escoteiros em Kansas City, Kansas.

Desde jovem, tive interesse pelos esportes e fui selecionado como “all-state” em 1932 e 1933 no Estado de Dakota do Norte. Participei dos Jogos Olímpicos dos Estados Unidos na modalidade salto ornamental em 1932; fui Inspetor de Salva Vidas da Cruz Vermelha em 1932, 33 e 34. Ensinava nado e mergulho em um campo de escoteiros e na piscina municipal de Minot, Dakota do norte. Frequentei a Universidade de Minnesota, onde nadei e mergulhei com Neils Thorpe, e também joguei futebol com Bernie Bierman. Mas ao entrar na faculdade não pude continuar com meu futebol por causa de uma lesão no joelho. Meu treinador de futebol no instituto foi Glenn L. Jarrett, que hoje é treinador da Universidde de Dakota do Norte. Tinha baixíssimos recursos, de modo que minha ambição de melhorar minha formação na universidade se realizaria através do esporte. Quando jovem, em Minot, Dakota do Norte, era um bom corredor de trenó com cães, escrevendo meu cachorro pela primeira vez em 1930 no Lions Club Dog Derby.

Em 1938 comecei a trabalhar para a Red Comet Inc de Littieton, Colorado, um fabricante de aparelhos automáticos contra incêndios. Em 1939 fui nomeado gerente de distrito para uma parte dos Estados do oeste e em 1940 fundei meu próprio estabelecimento de controladores de fogo, chamado Great Western Fire Control Supply. Tenho trabalhado desde então como engenheiro independente de controle de fogo, pelo que tenho manejado, distribuído, vendido e instalado todos os tipos de equipamentos automáticos e manuais contra incêndio nas áreas rurais de cinco estados do oeste.

Minha primeira experiência de voo começou quando era criança em Minot, Dakota do Norte, onde tive a primeira lição com Earias T. Vance, um nativo de Great Falls, Montana. Devido ao alto custo das aulas naquela época, eu não pude continuar e não fiz nenhum progresso significativo até 1943. O certificado de piloto foi-me dado por Ed Leach, um ex-inspector da CAA de Portiand, Oregon, e há três anos tenho o meu próprio avião, com a qual cubro todo meu território, voando desde então entre quarenta e cem horas por mês. Como em meu trabalho sempre utilizo um avião, em janeiro deste ano eu comprei um novo avião Callair, que é um avião desenhado para decolar em grandes altitude e usado em campos curtos e acidentados.

É um tipo de vôo que se requer muita prática e conhecimento, pois quase sempre temos que aterrissar e decolar em pastos de vacas sem danificar o aparelho; em alguns dos lugares que eu deveria ir a trabalho as estradas eram difícieis e a altitude elevada. Até o momento já aterrissei em 823 pastos de vaca nos prados montanhosos e voei por mais de mil horas com um pneu furado sendo o meu maior acidente.

Arnold com seu avião, em foto da época

Em conjunto com a biografia, Arnold descreveu seu testemunho. Segue o relato, nas próprias palavras do piloto. Os parágrafos foram numerados para facilitar referências no decorrer do artigo.Relato no Original. Project 1947. Acesso em 24/06/2010.

1. A história do que observei nas montanhas Cascade, por mais incrível que possa parecer, é positivamente verdadeira. Eu nunca pedi nem quis qualquer notoriedade apenas por ter estado no lugar certo na hora certa para observar aquilo. Relatei sobre algo que com certeza qualquer piloto teria relatado. Eu não acho de modo algum que minha observação se deveu a uma perturbação visual ou jugamento diferente do normal de qualquer piloto.

2. Na terça-feira, 24 de junho de 1947, eu tinha terminado meu trabalho para o Central Air Service de Chehalis, Washington, e as duas da tarde decolei do aeroporto com a intenção de chegar à Yakima, Washington. Minha viagem foi adiada por uma hora, para procurar um cargueiro da Marinha que supostamente teria caído no lado sudoeste ou arredores do Monte Rainier no Estado de Washington e que não foi encontrado até o momento.

3. Eu voei diretamente para o Monte Rainier, tendo atingido uma altitude de 2.900 metros, que é aproximadamente a elevação do planalto mais alto do Monte Rainier. Realizei um vôo de monitoramento do lado oeste do planalto buscando o avião da marinha entre os diversos picos e depois desci pela vertente lateral do desfiladeiro, onde está localizada Ashford, Washington.

4. Como não pude encontrar nada parecido com a aeronave perdida, eu fiz um giro de 360 graus para a direita, acima da pequena cidade de Mineral, dirigindo-me novamente para o Monte Rainier. Elevei-me a uma altitude de 2.800 metros.

5. O ar estava tão tranquilo naquele dia que o vôo era um verdadeiro prazer e, como fazem quase todos os pilotos quando o ar está suave e voando em grandes altitudes, pus meu avião em direção à Yakima, Washington, que estava quase a leste da minha posição, e encostei para observar o céu e o terreno.

6. Havia um DC-4 à minha esquerda e cerca de vinte e quatro quilômetros de distância e creio que 4.300 metros de altitude.

7. O céu e o ar estavam límpidos como um cristal. Eu passei apenas dois ou três minutos nesse curso quando flashes brilhantes refletiram sobre o meu avião. Fiquei surpreso, pois achei que se devia ao fato de eu estar muito próximo de algum outro avião. Fiz a varredura do céu em todas as direções, mas não consegui encontrar a fonte das reflexões até que eu olhei a parte esquerda e norte do Monte Rainier, onde uma formação de nove aparelhos de aspecto peculiar voavam do norte para o sul, a uma altitude de aproximadamente 2.900 metros, com uma direção definida de aproximadamente de 170 graus.

8. Eles estavam se aproximando do Monte Rainier rapidamente, de modo que supus serem aviões a jato. De qualquer maneira, descobri que os reflexos procediam deles, pois dois ou três deles a cada poucos segundos deciam e mudavam ligeiramente de posição, de modo que o sol incidia neles em um ângulo que refletia diretamente no meu avião.

9. Os objetos estavam muito longe, por vários segundos eu não pude perceber qual era sua forma ou sua formação. Logo se aproximaram do Monte Rainier e observei seu contorno contra a neve com muita clareza.

10. Achei estranho não ver suas caudas, mas assumi que eram algum tipo de avião a jato. Resolvi medir a sua velocidade, pois tinha dois pontos definidos que me permitiam fazê-lo; o ar estava tão claro que era fácil ver os objetos e determinar aproximadamente sua forma e tamanho a quase vinte e quatro quilômetros de distância.

11. Lembro bem que no marcador colocado no painel de condução faltava um minuto para as quinze horas quando o primeiro objeto da formação passou a borda sul do Monte Rainier. Observei os objetos com grande interesse, pois nunca havia visto antes aviões que voassem tão perto do topo das montanhas; voavam na direção sul-sudeste, descendo pelas costas de uma cadeia de montanhas. Estimei que sua altura podia variar 300 metros para cima ou para baixo, mas do meu ponto de obsevação se mantinham no horizonte, indicando que estavam aproximadamente na mesma altitude que eu.

12. Voavam da mesma forma que já vi fazerem os gansos, como se estivessem unidos em uma formação diagonal. Pareciam manter uma direção definida, mas desviavam dos picos motanhosos mais altos. Sua velocidade naquele momento não me impressionou em particular, pois sabia que o nosso exército e força aérea tinham aviões que eram muito rápidos.

13. O que me espantou ao vê-los seguir o seu caminho sob o sol era que eu não podia ver suas caudas, e tenho certeza que qualquer piloto sentiria valer a pena olhar mais de perto esses aviões.

14. Eu os olhei com cuidado e estimei que a distância que me separava deles seria de trinta e dois a quarenta quilômetros. Sabia que tinham que ser muito grandes para ver a sua forma até o momento, mesmo em um dia tão claro como esse, de fato eu os comparei com um parafuso (zeus fastener) ou broca (cowling tool) que eu tinha no meu bolso, mantendo primeiro sobre um deles e em seguida sobre o DC-4 – pude observá-los a uma boa distância a minha esquerda e pareciam menores que o DC-4; mas pude deduzir que eram tão grandes quanto a distância entre os motores suplementares de cada lado da fuselagem do DC-4.

15. Quanto mais eu olhava aqueles objetos mais aumentava meu espanto, pois estou familiarizado com a maioria dos objetos que voam, perto do solo ou em grandes altitudes. Notei que aquela formação de objetos passava por uma cadeia de montanhas com cumes cobertos de neve localizada entre os montes Rainier e Adams, e que, quando o primeiro ultrapassava no lado sul da crista o último entrava pelo norte.

16. Como eu voava na mesma direção desta crista em particular, eu a medi e concluí que tinha aproximadamente oito quilômetros, o que me permitiu assumir a extensão da formação daqueles objetos parecidos com discos era de oito quilômetros. Consegui determinar com precisão o seu curso devido ao fato de que haviam muitos picos altos em um dos lados, enquanto o maior estava do outro lado do curso que mantinham.

17. Quando a última unidade da formação passou o mais alto cume nevado do monte Adams, olhei o relógio e vi que haviam coberto a distância em um minuto e quarenta e dois segundos. Naquele momento, nem sequer essa velocidade me surpreendeu, pois tinha certeza de que ao aterrissar obteria alguma explicação para o que via.

18. Alguns jornalistas e especialistas sugeriram que eu tinha visto reflexos ou mesmo uma miragem. Isso é absolutamente falso, poi não só vira os objetos pelas janelas do meu avião, como abri os vidros laterais e pude fazê-lo com a visão completamente desobistruída (sem óculos de sol).

19. Embora dois minutos pareçam um curto espaço de tempo para alguém que está em terra, no ar em dois minutos um piloto pode ver um grande número de coisas e qualquer coisa que esteja dentro de seu campo de visão provavelmente será vista mais de cinco ou seis vezes.

20. Eu continuei minha busca pelo avião perdido durante outros quinze ou vinte minutos, mas o que tinha acabado de observar começou a ocupar minha mente. Encontrava-me inquieto, assim após uma última olhada no Reservatório de Tieton,Tieton Reservoir ou Tieton Dam. fui para Yakima.

21. Devo acrescentar que minha observação completa daqueles objetos, que eu pude acompanhar pelos reflexos enquanto passavam pelo monte Adams, variou entre dois minutos e meio e três minutos, mas quando atinginram o Monte Adams estavam fora do meu campo de visão para que fosse possível determinar suas formas. É claro, quando o sol se refletia sobre uma ou duas ou três unidades, elas pareciam completamente redondas; mas eu estou fazendo um desenho com o melhor da minha habilidade, que estou incluindo, de como eu os vi no momento em que passaram pelos picos nevados e pelo Monte Rainier.

22. Quando voavam aproximadamente em linha reta eram apenas uma linha preta fina, mas quando guinaram foi a única ocasião em que eu pude obter alguma indicação de seus tamanhos.

23. Os objetos mantiveram uma altitude praticamente constante, eles não pareciam subir ou descer, tal como aconteceria com foguetes ou projéteis de artilharia. Estou convencido de que se tratavam de algum tipo de aeronave, embora em muitos aspectos não correspondam aos tipos que conheço.

24. Embora esses objetos tenham sido reportados por muitos outros observadores nos Estados Unidos, existem seis ou sete casos em que eu posso dizer com plena convicção que observaram o mesmo que eu; particularmente os trabalhadores das três Western Air Unes (Cedar, City, Utah), o cavalheiro (piloto) em Okiahoma City e o mecânico de locomotivas de Illinois, além do Capitão Smith e o Co-piloto Stevens da United Air Lines.

25. Algumas descrições feitas a partir do solo podem não ser muito precisas a menos que esses discos semelhantes a pires estivessem a grande altitude, de modo que todos os que tenham observado objetos estranhos os poderiam ver da mesma forma que eu vi. Em terra tem sido muito difícil de observá-los por mais de quatro ou cinco segundos, sem contar a possibilidade da umidade atmosférica e a poeira atrapalharem a visão.

26. Tenho cartas dos Estados unidos e de pessoas que dizem que esses objetos foram vistos em outras partes do mundo, principalmente Suécia, Bermudas e Califórnia.

27. Teria dado qualquer coisa naquele dia para ter levado comigo uma filmadora ou uma câmera fotográfica, e desde então nunca ando sem uma. Mas vou continuar com minha história. Quando aterrissei no aeroporto de Yakima, Washington, eu descrevi o que tinha acontecido a meu velho e bom amigo, Al Baxter, que escutou pacientemente e foi muito educado mas, como piadista, não acreditou em mim.

28. Eu não medi com precisão a distância entre as duas montanhas até pousar em Pendlenton, Oregon, no mesmo dia onde havia contado o que havia visto a vários pilotos amigos meus. Eles não riram ou zombaram, mas sugeriam que deveriam ser mísseis teleguiados ou algo novo. De fato, alguns ex-pilotos militares disseram-me que antes de ir para a batalha no mar os haviam advertido sobre chance de ver objetos semelhantes aos descritos por mim e me garantiram que eu não estava sonhando ou enlouquecendo.

29. Cito as palavras de Sonny Robinson, o ex-piloto da Força Aérea da Marinha, que agora está realiando operações de pulverização em Pendleton, Oregon: “O que você viu, estou convencido, é algum tipo de foguete ou avião com propulsão a jato que está sendo testado pelo nosso governo, ou mesmo por algum governo estrangeiro”.

30. De qualquer forma, a notícia do que vi se espalhou rapidamente, e antes do final da noite estava recebendo telefonemas de todas as partes do mundo; e, até agora, não recebi uma única chamada de escárnio ou de ceticismo. O único ceticismo que eu conheço é aquele impresso nos jornais.

31. Eu vejo tudo isso não como algo divertido como algumas pessoas podem achar que seja. Considero algo muito sério, pois o fato de você ter visto algo que nem o Sr. John Doe na esquina da rua ou Andrews Pete em seu rancho nunca tenham ouvio falar, não é razão para que ela não exista. Apesar de ter convidado o Exército e do FBI para investigar a autenticidade de minha história e analisar a minha capacidade mental e física, não recebi nenhum sinal de interesse por essas duas importantes forças de proteção do nosso país; suponho que, na sequência de relatos de que dei a United and Associated Press, e duas vezes por rádio, viajando por todo o país, se a nossa inteligência militar não conhecesse o que vi teria sido a primeira a vir me visitar.

32. Tenho recebido cartas de pessoas me pedindo para fazer suposições. Baseei o que tenho escrito neste artigo positivamente em fatos e, quanto a adivinhar o que observei, é tanto um mistério para mim como para o resto do mundo.

33. Minha licença de piloto é 333487. Eu vôo em um avião Callair; ele é um monomotor de três lugares projetado e fabricado em Afton, Wyoming, como aeronave de alto desempenho e para grandes altitudes, ideal para trabalhar em montanhas. O certificado nacional do meu avião é 33355.

Kenneth Arnold
Box 587
Boise, Idaho

Kenneth Arnold morreu em 16 de Janeiro de 1984. Após o avistamento, em virtude do grande número de relatos que recebia via carta e telefone, começou a reunir ocorrência sobre discos voadores, publicando o primeiro estudo moderno sobre o assunto, em conjunto com Raymond Palmer, The Coming of the Saucers (1952).

RECONSTITUIÇÃO

O avistamento de Arnold teve grande repercursão. Ele tinha muita credibilidade, era evidente não ser um impostor e não parecia procurar publicidade. Diante da estranheza dos fatos, muitos críticos argumentaram que, mesmo agindo de boa-fé, o piloto deveria ter cometido um erro de interpretação ou tido uma ilusão de ótica. Essas questões foram poderadas e rechaçadas pelo próprio Arnold, que as menciona no documento anteriormente transcrito (parágrafos 1 e 18).

O testemunho do piloto é reforçado por outros semelhantes ocorridos na mesma época naquela região. Ele também menciona tais ocorrência em sua carta (24, 25 e 26), mas deixaremos o tratamento desses casos para artigos posteriores. No momento, vamos nos preocupar com a análise da coerência e consistência do testemunho isolado de Arnold, principal alvo dos críticos. Teremos como base o depoimento transcrito acima, elaborado pelo próprio Arnold na época do acontecido, que ele sustentou até o fim, pouco acrescentando detalhes nas repetições posteriores. Sua reconstituição, observando pormenores, parece vital para avaliar sua relevância e consistência.Analise uma reconstrução das posições relativas no Google Maps.

Reconstituição das possíveis rotas. Arnold em verde, objetos em amarelo.

Após sair de Chehalis, Arnold voa direto para o Rainier, mantendo cerca de 2.900 metros de altitude. Ele realiza um monitoramento do lado oeste do planalto e desce pelo desfiladeiro onde se localiza a cidade de Ashford (3). Acima da cidade de Mineral, faz um contorno para a direita, retomando à direção do Monte Rainier, com 2.800 metros de altitude (4).

Arnold afirma I made a 360 degree turn ou fiz um giro de 360 graus (4). A expressão não tem rigor técnico, mas era comum na época. Rigorosamente, um giro de 360 graus deixaria o aeroplano na mesma posição original, mas o sentido da expressão é dar uma volta ou fazer um retorno. Isso fica claro pelo fato do avião vir do desfiladeiro onde está Ashford (3) e, após a manobra, retomar o rumo ao Rainier (4). Mesmo no Brasil, há até bem pouco tempo, a expresão com esse mesmo sentido era comum.

Diante do bom tempo, ele direciona o avião para Yakima, quase a Leste, disposto a apreciar a paisagem (5). Ele identifica a presença de um DC-4 a esquerda, a cerca de 24 km de distância e 4.300 metros de altitude (6).

Douglas DC-4

O Douglas DC-4 é um avião quadrimotor de longo alcance desenvolvido a pedido da United Airlines. Seu primeiro vôo experimental ocorreu em 1939, já sendo quase um décano quando foi visto por Arnold. Seu comprimento é de 28,6 metros e a envergadura de cerca de 35,81 metros.Douglas DC-4. Wikipédia. Acesso em 23/04/2010. Tais informações eram difundidas entre pilotos, de modo que não há motivos para supor que as estimativas de Arnold quanto a posição do DC-4 estivessem erradas.

Dois ou três minutos depois de iniciar o curso, reflexos no avião chamam sua atenção, fazendo-o identificar objetos na região noroeste do Rainier (7). Eles seguiam na direção sul-sudeste – 170 graus (7).Veja Navegação e Referenciamento. Como Arnold via os objetos no horizonte, deduziu corretamente que deveriam estar a mesma altitude que ele, entre 2.800 e 2.900 metros, situação que se manteve durante todo o avistamento (4, 7, 11 e 23).

Os objetos aproximaram-se do Rainier, permitindo leve definição de seu contorno (9). Arnold assume que os objetos estariam a cerca de 24 km dele (10). Essa é aproximadamente a distância entre o Rainier, por onde passavam os objetos (9), e a cidade de Mineral, que distava apenas cerca de dois ou três minutos da posição do piloto (7), de modo que a estimativa foi muito sensata.

Os objetos mantinham o curso sul-sudeste, descendo uma cadeia de montanhas (14). Uma vez que Arnold estimou a distância deles nesse momento como entre 32 e 40 km (14), imagino que tal cadeia seja da região de Tatoosh. Ela é adjacente à borda sul do Rainier e se encontra precisamente a essa faixa de distância da cidade de Mineral que, como vimos, parece ter sido a referência usada pelo piloto.

Região da reserva de Tatoosh, ao sul do Rainier

Na sequência, Arnold realiza os cálculos para estimar o tamanho dos objetos. Comparando os mesmos com um pequeno parafuso a distância de um braço e depois usando o mesmo método com o DC-4, Arnold conclui que eles mediam aproximadamente a distância entre os moteres suplementares do cargueiro (14). Isso corresponde a cerca da metade da envergadura de 35,81 metros do DC-4, resultando um valor aproximado de 15 metros. Arnold sabia a posição do DC-4 e estimava a posição dos objetos, o que o permitiu fazer uma triagulação simples, técnica comum entre pilotos.

O melhor momento para ter realizado os cálculos teria sido quando os objetos começaram se a proximar do Rainier (9). Naquele momento eles estavam com distância estimada de 24 km (10), a mesma do DC-4 (6), de modo que a comparação de tamanho podia ser feita de forma mais direta, sem muitas aproximações. Mas isso seria exigir demais. Arnold usou a oportunidade para tentar observar detalhes na forma dos objetos e, sem dúvida, levantou muito mais informações que a média das pessoas conseguiria.

Na sequência do percurso, os objetos passaram uma cadeia de montanhas nevadas, localizada entre os montes Rainier e Adams (15). Certamente trata-se da região de Goat Rocks, descrita com precisão e, com certeza, uma referência inconfundível para os conhecedores da área. O pico mais alto, do outro lado do curso dos objetos (16) deveria ser o Big Horn, com 2.400 metros; os demais, o grande número de picos com cerca de 1.600 metros a oeste da cadeia.

Monte Adams no primeiro plano, com o Rainer ao fundo. Goat Rocks a direita, entre os dois montes.

A imagem acima ilustra bem a região.Woodardphotos.net. Acesso em 24/04/2010. O Monte Adams é o do primeiro plano. O Monte Rainier está ao fundo. A mancha branca na estrema direita, entre os montes Adams e Rainier corresponde à região de Goat Rocks.

Na estimativa do comprimento da formação, Arnold também usou técnicas de triangulação. Ele mediu a crista nevada de Goat Rocks, chegando a estimativa de 8 km (16). Ele deve ter medido o comprimento do referêncial com um dedo ou objeto à distância do braço, como fez antes (15), utilizou seu conhecimento do terreno para estimar a distância entre o referencial e o avião, e calculou a distância real por triangulação. O resultado foi muito preciso, 8 km é aproximadamente a extenção da área nevada de Goat Rocks pelo ângulo em que estava o piloto.Veja no Google Maps.

Como o primeiro e último objeto estavam simultaneamente nos extermos da área nevada em determinado instante, Arnold assumiu ser essa a extenção da formação (15 e 16). Os objetos, por fim, seguem sua trajetória, sumindo por trás do Monte Adams (17). Arnold continua voando por cerca de 20 minutos e segue para Yakima após passar pelo Reservatório de Tieton (20).

OBJETOS

Arnold teve oportunidade de observar a forma e contorno dos objetos por duas vezes: uma quando estavam diante do monte Rainier (9) e outra quando cruzaram os picos nevados entre o Rainier e o Adams (21). Em um primeiro momento, a atenção do piloto foi despertada pela ausência de cauda visível nos objetos (10 e 13). Sua velocidade não causou interesse inicial, mas era alta o suficiente para que o piloto considerasse os objetos como aeronaves a jato (10).

Desenho de Arnold (1947), capa da Revista Fate (1948) e arte no livro “Comming of The Saucers” (1952)

Aqui cabe cuidado para que não se cometam injustiças. A racionalização de eventos anômalos, acompanhada da construção ou reconstrução de memórias e crenças é um expediente conhecido da mente humana, chamado pela psicologia social de Dissonância Cognitiva.

Arnold acreditava que os objetos fossem algum tipo de aeronave secreta e é visível que a mutação do formato no decorrer do tempo caminha no sentido de viabilizar uma melhor aerodinâmica, conforme os padrões conhecidos, aumentando a probabilidade da tese. Ocorre a tentativa de reduzir o grau de estranheza, alterando a aparência das naves dentro do possível.

Sob esse aspecto, a representação mais fiel é a primeira, desenhada na carta para a Força Área. Naquele momento, Arnold estava menos contaminado por sua própria dissonância – o esforço de sua mente em busca de uma explicação plausível para o que testemunhara.

VELOCIDADE

O ponto mais anormal no avistamento de Arnold foi a imensa velocidade dos objetos. Nenhum artefato conhecido na época poderia realizar o que foi observado. Vários expedientes foram usados para contornar o problema, tentando viabilizar uma explicação para o ocorrido. Em todos, o apelo central é atribuir erro, engano ou inconsistência naquilo que foi apresentados pelo piloto. Analisemos techos apresentados por analistas críticos do caso.

Arnold disse que eram 14:59h quando o PRIMEIRO objeto da formação passou pela bordas SUL do Monte Rainier. É de se supor que essa seja uma das referências que o ajudou a calcular sua velocidade.

A segunda é o Monte Adams, pelo qual o sumiu o ÚLTIMO objeto 1:42 minutos depois.

Como a extenção da formação era de 5 milhas (8km), e a distância entre as bordas Sul dos montes é de 66 km, a distância percorrida pelos objetos foi de 66-8=58 km.

Logo sua velocidade era de 2.047 km/h.Dice Arnold que eran las 14:59 cuando el PRIMER objeto de la formación pasa junto al lado SUR del Monte Rainer. Es de suponer que ésta es una de las dos referencias que le ayudó a calcular su velocidad. La segunda es el Monte Adams, por cuyo Sur salió el ÚLTIMO objeto 1:42 minutos después. Como la extensión de la formación era de 5 millas (8km), y la distancia entre ambos puntos Sur de los montes es de 66 km, la distancia recorrida por los objetos fue de 66-8=58 km. Por lo que su velocidad, era de 2.047 km/h. Liria Azaila, El Caso de Kenneth Arnold o del primer platillo volante. Acesso em 23/04/2010.

Nesse caso, os dados apresentados estão corretos, mas os cálculos errados. Quando o PRIMEIRO objeto saiu do Sul do Rainier e sumiu atrás do Adams, ele havia percorrido os 66 km que separam as montanhas. Para o ÚLTIMO objeto desaparecer, ele precisaria ainda percorrer a distância que o separava do primeiro objeto, ou seja, o comprimento da formação, 8 km. Assim a distância calculada percorrida pelos objetos seria 66 + 8 = 74 km. O resultando é uma velocidade de 2.611 km/h, mas ainda cabem observações.

Considerando a posição do avião de Arnold, objetos saindo do noroeste do Rainer, a cerca de 24 km (7 e 10), descendo pelas cadeias montanhosas da reserva de Tatoosh, a cerca de 32-40 km (12 e 14), tangenciando Goat Rocks, entre o Big Horn e os picos ao oeste (15 e 16), e posteriormente desaparcendo atrás do Monte Adams (17) devem, necessariamente, seguir uma tragetória convexa (linha alaranjada, a imagem abaixo).

Arnold fez um bom trabalho de aproximação, e mostrou grande senso de oportunidade, ao estimar o comprimento da formação de objetos com base no comprimento da crista nevada de Goat Rocks (16). Essa é uma estimativa razoável, mas há um erro. Arnold seguia uma tragetória quase a Leste (5), os objetos sul-sudeste (7) e Goat Rocks estava certamente a direita do avião, a esquerda de Arnold (14), que mudava de posição dentro dele.

Para que a extensão da formação equivalesse aos 8 km medidos da crista, seria necessário que os objetos estivessem voando de forma perpendicular ao avião, paralela à Goat Rocks, situação impossível pelas tragetórias e posições relativas observadas. A extenção da formação seria maior que os 8 km estimados, correspondendo, no mínimo, a hipotenusa do triângulo retângulo da imagem abaixo.

Tanto uma tragetória não retilínia, quanto uma extensão maior para o comprimento da formação, ambas perfeitamente defensáveis, resultariam em estimativas mais altas de velocidade. Dessa forma, 2.611 km/h seria um valor mínimo. Como já é suficiente para corroborar o que é defendido aqui, pouparemos debate e consideraremos esse número.

Veremos adiante, contudo, que a distância oficial entre os dois montes, adotada nas investigações da Força Aérea dos EUA, é de 75 e não 66 km, o que resulta em uma velocidade potencial de 2.647 km/h.

ALTITUDE

No Monte Rainier, existem três picos com mais de 4.300 metros de altitude e mesmo o planalto, nas palavras de Arnold, está em 2.900 metros (9.500 pés), embora existam partes com 2.100 metros ou menos.

Supõe-se que o lado de Arnold estava a 2.900 metros como informa em sua história.

Nas áreas abaixo de 2.000 metros há exuberantes florestas com árvores gigantescas denominadas Abetos Douglas, que podem crescer até 60 metros. Uma paisagem difícil para uma observação tão clara.

Arnold voou a 2.900 metros, e como decorre na sua história nunca chegou ao planalto, pois se dedicou a procurar a aeronave perdida pelo lado oeste.

Dado que os objetos também voavam a 2.900 metros, tendo atravessado o planalto do Rainier, teriam que ter feito isso ao nível do solo. E, de fato, para manter um “curso de norte a sul” a 170º tendo por destino o Monte Adams, não havia outra escolha exceto passar sobre ele.

Embora possam ter evitado os picos, como disse Arnold, “com manobras bruscas”, o fato é que eles devem ter voado pelo menos 3 km acima do platô, dados os picos que possui.

Assim, a altitude estimada pelo piloto de 2.900 metros deveria ter sido, pelo menos, 6.000.

Um erro imperdoável.Ver Liria Azaila, El Caso de Kenneth Arnold o del primer platillo volante. Acesso em 23/04/2010.

Apresentam-se, na verdade, uma sucessão de erros imperdoáveis. O argumento vai bem até o quinto parágrafo, quando a analista concluí que as naves deveriam ter passado por dentro montanha. Ela parece ter assumido que o Monte Rainier, ao menos até seu planalto, seria um bloco sólido de 2.900 metros de altitude, sem os acidentes típicos desse tipo de terreno. De qualquer maneira, Arnold observou os objetos se aproximarem pela borda noroeste, e não por cima da montanha (7).

No mais, confesso não ter comprendido a última parte do argumento. Uma vez que os objetos se desviavam com manobras bruscas (12),Arnold afirma [they] swerved in and out of the high mountain peaks. Outra tradução possível seria: zigue-zagueavam entre o picos motanhosos mais altos. por que deveriam estar a pelo menos 3km acima do planalto? O fato é que Arnold se impressionou muito pelos aparelhos voarem tão perto da montanha (11) e estimou adequadamente sua altitude devido a sua posição no horizonte (11).

Tais alegações de que Arnold teria errado o cálculo da altitude dos objetos não são consistentes, mas trazem elementos que reforçam a tese de que os objetos devem ter cursado uma tragetória não retilínea, aumentando as estimativas de velocidade, como já apresentado.

PELICANOS BRANCOS

Várias hipóteses foram elaboradas para tentar explicar o avistamento. Particularmente devido ao número de objetos envolvidos, cogitou-se a possibilidade de uma formação de pássaros. Esse argumento foi exaustivamente explorado por James Easton, em seu artigo Flying Saucers and Undulating Flight.Traduzido sofrivelmente em Kenneth Arnold, ‘Discos Voadores’ e Vôo Ondulante. Ceticismo Aberto. Acesso em 27/04/2010.

Conforme Easton, quando descrições do relato de Arnold foram apresentadas a ornitologistas do Noroeste do Pacífico, vários identificaram a mesma espécie de pássaro como exibindo características similares às relatadas. Michael Price, um ornitologista de Vancouver, teria sido o primeiro a sugerir:

Há uma espécie que é uma candidata possível na área naquela época do ano, onde a cor, tamanho, perfil de vôo e tendência para voar em formação por vezes em grandes altitudes poderiam produzir todos os detalhes do fenômeno que Arnold observou: um grupo de Pelicanos Brancos que não se reproduziram indo para o sul. Eles seriam grandes o suficiente para serem visíveis a uma boa distância, eles voam em formação e se a luz estivesse refletindo diretamente do grande pico congelado próximo, seu branco comparativamente vasto iria refletir muita luz exatamente no padrão descrito por Arnold.

A hipótese de Easton se sustentaria na suposta explicação simutânea de cinco características do avistamento: 1) Os objetos eram parecidos com morcegos, tinham forma de crescente ou, como Arnold descreveu em entrevista para a rádio KWRC no dia após o encontro: eles pareciam com um prato de torta cortado no meio com um tipo de triângulo convexo na traseira; 2) Eles voavam em uma formação parecida com uma corrente, ondulando enquanto viajava; 3) Eles frequentemente se inclinavam, resultando em um flash de luz refletida, movimento seguido por um período de planagem; 4) A inclinação, quando ocorria, fazia com que o objeto parecesse ganhar altitude ou desviar levemente da formação; e 5) A inclinação ocorreu várias vezes durante a observação de aproximadamente 2:30 minutos.

Pelicanos, de fato, são aves que ocorrem na região e seus vôos em formação, como na maioria das aves que o fazem, intercalam períodos de planagem com o de esforço para ganhar impulso. Uma ave em formação de voo poupa energia aproveitando o vácuo deixado pela outra, resultado em movimentos ondulatórios do conjunto. Como os objetos estavam em formação (7) e faziam inclinações esporáticas (8), poderiam ser pelicanos brancos. Essa é a parte forte do argumento.

Formação de pelicanos brancos “ondulando”.

Fragilidades se apresentam em vários outros pontos. Afirmar que pelicanos podem paracer um prato de torta cortado no meio com um tipo de triângulo convexo na traseira é conveniente para o argumento, mas abre várias questões. A cauda e as pernas dos pelicanos em vôo são relativamente pequenas em relação ao resto do corpo. Se esse conjunto era visível, a cabeça também deveria ser. Se a cabeça era visível, o bater de asas o seria igualmente. A parte frontal dos objetos era arredondada, sem cabeça ou bico, que é bem pronunciado em pelicanos. Também não era claro o bater de asas, apesar de Arnold não ter desconsiderado uma formação de aves em sua avaliação (12).

A explicação de Easton considera que os reflexos vistos por Arnold seriam a brancura da plumagem dos pelicanos ao sol, quando tentavam manter sustentação. Ainda que tal efeito seja possível, não conhecemos registro de reflexos na plumagem de aves com capacidade de iluminar a cabine de um avião a distância, ao ponto de chamar a atenção do piloto (7 e 8).

A hipótese dos pelicanos também enfrenta dificuldade para explicar a imensa velocidade dos objetos. Easton opta por questiona a consistência do relato, asumindo que Arnold deve ter errado referenciais, projeções e estimativas. Assume que os objetos devam ter desaparecido em algum outro lugar que não no Adams, de modo que sua velocidade seria menor que aquela estimada a partir dos fatos relatados. Fica em aberto quais seriam aqueles objetos que Arnold comparou com o DC-4 para ter uma estimativa de tamanho (14), que ele viu contra a cadeia de Goat Rocks e o ajudaram a realizar os desenhos (21) e que ele acompanhou até desaparecerem atrás do Adams (17).,

ASAS VOADORAS

Acréscimo em 20/05/2013.

h-229

Horten Ho-IX

Uma “asa voadora” seria uma aeronave de asa fixa sem fuselagem definida, com o aspecto semelhante ao de um bumerangue. Teoricamente, elas teriam uma configuração mais eficiente do ponto de vista da aerodinâmica e peso estrutural.Asa voadora. Wikipédia. Acesso em 20/05/2013.

A primeira asa voadora a jato do mundo teria sido o Horten Ho-IX, um avião experimental alemão de 1944. Criado pelos irmãos Horten, os protótipos passaram a ser conhecidos como Horten Ho 229 ou H-229.Gotha Go 229. Wikipédia. Acesso em 20/05/2013. A proximidade das datas e eventual semelhança na descrição da aeronave com os objetos de Arnold levaram à hipótese de que ele teria visto aviões experimentais. A hipótese seria confortadora, mas não sobrevive a uma análise mais cuidadosa do caso.

O aspecto ondulante do voo, fator que não está presente em aviões a jato, não pode ser explicado. A ausência de ruído, que sempre é fator evidente nesse tipo de aeronave, também fica em suspenso. A velocidade máxima dos H-229 é de 977 km/h, muito abaixo da necessária para realizar o percurso no tempo observado.

A hipótese também exige que se conceba a inusitada situação onde Força Aérea Americana possuía apenas não um ou dois aviões inimigos, mas NOVE, tendo resolvido atipicamente fazer um teste simultâneo com todos eles. Cabe lembrar que o H-229 alemão nunca chegou a entrar em operação, constando que apenas três unidades tenham sido fabricadas.Gotha Go 229. Wikipédia. Acesso em 20/05/2013.

Depois da guerra, oficialmente finalizada  em 02/11/1945, outros modelos teriam surgido com base na investigação alemã. Talvez algum deles estivesse inteiramente concluído nos menos de dois anos que correram até o momento do avistamento. Contudo, nenhum protótipo com pelo menos nove unidades fabricadas, velocidade máxima acima de 2000 km/h, além de voo silencioso e ondulante, parece pode ser indicado como possível candidato.

Por fim, cabe destacar que mesmo a aparência de asas voadoras  só pode ser atribuída se for considerada a versão dos objetos apresentada no livro de 1952, quando elementos de racionalização e compensações por dissonância já deviam estar presentes. O aspecto mais fiel dos objetos, conforme já comentado, seria aquele constante no relatório da época.

TAMANHO

Em respeito às descrissões de Arnold, alguns críticos afirmam que o olho humano não teria a capacidade de resolução para discernir objetos de 15 metros de largura a uma distância de 30 km, de modo que Arnold deveria ter avaliado mal as distâncias, estando os objetos muito mais próximos. Esse argumento, por vezes, é apresentado sem maiores explicações.Um cientista lembrou que o olho humano não tem capacidade de resolução para discernir objetos de 13 a 15 metros de largura a uma distância de 30 km. Certamente Arnold avaliara mal a distância, os objetos que vira deviam estar muito mais próximos. Ufologia – O Mistério Desvendado. Acesso em 23/04/2010. Noutras, há uma tentativa superficial de desenvolvimento.

O tamanho dos objetos segundo Arnold era de aproximadamente 15 metros de envergadura.

Sendo assim, e dado que o tamanho aparente se reduz com o quadrado da distância, é impossível que fossem visto a mais de 30 km.El tamaño de los objetos según Arnold era de unos 15 metros de envergadura. De ese modo, y dado que el tamaño aparente se reduce con el cuadrado de la distancia, es imposible que los viese a más de 30 kilómetros. Liria Azaila, El Caso de Kenneth Arnold o del primer platillo volante. Acesso em 23/04/2010.

O quadrado da distância é uma relação importante quando tratamos de aceleração gravitacional, mas ela não rege o tamanho aparente dos objetos. Havendo boas condições de visibilidade, o olho humano normal médio pode distinguir com nitidez objetos em grandes distâncias. Uma aproximação do comprimento mínimo visível a determinada distância pode ser obtido através da relação de distância angular entre os dois pontos, sendo o ângulo medido no vértice do centro óptico do sistema e o arco dado pelo comprimento linear do objeto.

O poder de resolução do olho humano “normal” é cerca de 1 minuto de grau (1/60 de grau) ou 0,00029 radianos. Desta forma, isto significa que dois pontos do objeto, para serem distinguidos por nós como sendo efetivamente dois pontos (e não um único ponto) devem estar separados, quando tomamos o olho como vértice, por um ângulo de no mínimo 1 minuto de grau. Portanto, é fácil calcular, por exemplo, a que distância devemos estar postados de dois pontos pintados em uma parede bem iluminada, separados por 1 cm, para que possamos distingui-los. Essa distância deve ser no máximo 1 cm dividido por 0,00029 radianos, o que resulta em cerca de 30 metros.Fernando Lang da Silveira. Centro de Referência para o Ensino de Física, UFRGS. Acesso em 23/04/2010.

Vejamos esse cálculo considerando a fórmula de diâmetro ângular. Para T e D dados em centímetros, desejamos saber qual a distância D para que um objeto de tamanho T possua diâmetro ângular de 1 minuto de grau, a resolução normal do olho humano.Veja Navegação e Referenciamento.

1º = T/D * 360/2?

1′ = 60 * T/D * 360/2?

D/T = 60 * 360/2?

D = T * 3.437,739

Assim, um objeto com 1 cm de comprimento seria visível a 3.437 centímetros ou 34,37 metros. Igualmente, em condições favoráveis de vizualização, um objeto de 1.500 centímetros (15 metros) seria visível a 5.156.556 centímetros ou 51,56 km, fornecendo com folga a possibilidade efetiva para a ocorrência do avistamento conforme relatado por Arnold.

A tentativa original em demonstrar incossistências entre o tamanho estimado dos objetos e a distância observada pelo piloto foi de autoria do astrônomo, e posterior ufólogo, Allan Hynek.Kenneth Arnold Case. Disponível em Project Blue Book Archive. Acesso em 28/04/2010. Ela acabou sendo adotada como argumento central da USAF para desqualificar o caso no âmbito do Projeto Blue Book.Final report – Preview of Motion Picture “Unidentified Flying Objects”. Disponível em Project Blue Book Archive. Acesso em 28/04/2010.

Caso Kenneth Arnold (Mt. Rainier, Washington): Esse foi o primeiro caso de OVNIs nos Estados Unidos, e um que, indubidavelmente, desencadeou as demais desde então. Ele não foi comentado no relatório preliminar. A seguir está uma análise técnica feita para esse caso pelo Dr. Hynek com base nas próprias declarações do Sr. Arnold: ele fez desenhos dos objetos mostrando uma forma definida, e afirmou que esse objetos aparentavam ser 20 vezes mais longos que largos, estimando 13-15 metros de comprimento. Ele também estimou a distância de 32-40 km e marcou que percorreram 75 km em 102 segundos (2.647 km/h). Essas declarações são mutualmente contraditórias: Se a distância estiver correta, então para que fosse possível ver os detalhes, os objetos deveriam ter o tamanho de cerca de 30 x 600 metros. Se nos adotarmos um tamanho razoável – Arnold mesmo estimou 15 metros de comprimento com cerca de 1 metro de largura, os objetos deveriam estar perto de 1,7 km, obviamente contradizendo o que foi alegado. Se nós adotarmos o tamanho razoável para os objetos de 6 x 120 metros, eles deveriam estar perto de 9,6 km para mostrarem os detalhes apontados por Arnold. A essa distância, a velocidade angular corresponderia a no máximo 644 km/h. Com toda a probabilidade, portanto, os objetos estavam muito mais perto que imaginado, e se movimentando definitivamente a uma velocidade “sub-sônica”. Nota: Os dados utilizados foram pegos dos arquivos originais de Arnold. Não existem outras testemunhas ou observações sobre esse caso.

A análise dos cálculos mostra que foi aplicada uma margem de segurança, dobrando a resolução necessária para visualização, de 1 minuto para 2 minutos de grau, de modo que D = T * 30 * 360/2?, ou D = T * 1.718,869. Para os mesmos tamanhos T, as distâncias máximas D caem pela metade. Também se usou o expediente de empregar a aresta mais curta, a largura, em detrimento da mais longa, o comprimento. Assim, a uma distância onde eram visíveis 15 metros (de comprimento) passam ser necessários 30 metros (de largura), um objeto de 1 metros (de largura) só é visível a no máximo 1,7 km e objetos de 6 metros necessitam de cerca de 9,6 km para mostrar detalhes.

O cálculo da velocidade é realizado a partir da distância de 9,6 km vinda do tamanho razoável dos objetos arbitrado em 6 x 120 metros. É feita uma triagulação simples: se os objetos percorreram 75 km do Rainier ao Adams a partir de um ponto a 40 km estimado por Arnold, teriam percorrido 16,85 km se esse ponto estivesse a 9,6 km de distância; são 16,85 km em 102 segundos, que resultam nos 644 km/h.

Pode-se ver que há estilo, mas também marretadas. A duplicação da resolução necessária, um fator certamente conhecido por qualquer astrônomo, foi uma maneira sutil de forçar a conclusão de que os objetos deveriam estar mais próximos. Usar a largura e não o comprimento como medida de controle teve o mesmo efeito, e faria todo o sentido se os objetos se mativessem sempre perpendiculares ao observador. Mas eles se inclinavam (8) e pareciam discos (16 e 25) de modo que uma superfície quase circular, com até 15 metros de diâmetro, podia ser definida. Por fim, o cálculo da velocidade com base em parâmetros arbitrariamente definidos como 6 x 120 metros evidencia um claro esforço para alcançar valores confortáveis.

CONCLUSÕES

Como exposto, as inconsistências nas tentativas de explicar esse avistamento como um acontecimento trivial são significativas. Considerando a reputação de Arnold e a coerência de seu testemunho, não há dúvida de que ele seja representativo. Tratando-se, contudo, de testemunho com um único observador, não corroborado por outros elementos,Como já dito, constam outros testemunhos da época na região, mas eles só serão considerados após possuírem artigos tratando-os individualmente. o caso está avaliado como tendo Estranheza 3 (E=3), Probabilidade 2 (P=2), Relevância 2 (EP=32), conforme nossos critérios.Veja Organização e Método.

A latitude e a longitude consideradadas no fichamento correspondem ao leste da cidade de Mineral, a meio caminho do monte Rainier.

FICHAMENTO

Data: 19470624 | Latitude: 46.725467 | Longitude: -121.971743 | Relevância: 2 | Estranheza/Probabilidade: 32 | Classificação Vallée: Tipo-IVc | Classificação Hynek: DD | Classificação Vallée-Hynek: FB-1 | Classificação CBPDV: CI-0 | Testemunhas: Competente, Universitária, 1 | Objetos: 6-10 | Forma: Disco | Tamanho: Grande | Brilho: Reflexivo, Desconhecido | Hora: 12h-16h | Duração: 1m-5m | Término: Afastou | Clima: Limpo | Características: | Pesquisadores/Envolvidos: .

TAGS: Análises, Ocorrências, Ufologia.

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Comentários [3, RSS]
  • Nosso primeiro caso, com justiça. Sua importância pode aumentar com a análises dos demais relatos ocorrido no período. Pena que os dados sobre eles sejam tão escassos.

  • Fernando Ramos

    Permita-me colocar um pouco de areia na engrenagem deste tão famoso caso.

    Em 1947 sentiam-se ainda os ventos da vitória da 2ª GM.
    Exploravam-se as tecnologias apreendidas pelos aliados e com toda a certeza que se continuaram a desenvolver outras tecnologias que estavam embrionárias no final da guerra e que por causa dela não tinham sido desenvolvidos.

    Isto leva-nos ao H-229 e consequentemente a Kenneth Arnold.
    Como?
    Basta comparar o desenho que ele fez dos OVNIs que viu (à distancia) (http://www.ufoeyes.com/wp-content/uploads/2012/09/kenneth-arnold-ufo-1947.png) com o avião alemã secreto H-229 encontrado num armazem no final da 2ªGM (http://www.newlaunches.com/entry_image/0609/30/Horten-2-29-stealth-fighter-plane.jpg).
    Juntemos agora a esta “caldeirada” o secretismo que envolve tudo o que é desenvolvimento de tecnologia militar e temos os condimentos para a tentativa de descrédito das autoridades americanas ao que Kenneth Arnold observou…

    De certa maneira foi mais seguro deixar que as pessoas pensassem tratar-se de um OVET do que ficarem a saber que se tratava de uma tecnologia terrestre…

    Até que ponto muitos dos casos de hoje em dia não serão camuflados sob a capa de OVETs?

    • Fernando,

      A hipótese explicativa do H-229 apresenta aspectos positivos e negativos. Sua principal vantagem, em meu ponto de vista, é que, por óbvio, descartar a ideia esdrúxula dos pelicanos. No mais, apresenta graves inconsistência.

      O aspecto ondulante do voo, fator que não está presente em aviões a jato, sejam atuais ou da década de 1940, não pode ser explicado pela hipótese. A ausência de ruído, que sempre é evidente nesse tipo de aeronave e que muita surpresa causou à testemunha, também fica em suspenso. Adicionalmente, a velocidade máxima dos H-229 é de 977 km/h, muito abaixo da necessária para realizar o percurso no tempo observado.

      A hipótese também exige conceber a inusitada situação em que a força aérea americana possuía não um ou dois aviões inimigos, mas NOVE, e resolveu fazer um teste simultâneo com todos eles naquela curiosa situação. Cabe lembrar que o H-229 alemão nunca chegou a entrar em operação e contam que apenas 3 tenham sido fabricados.

      Por fim, mesmo a aparência entre eles só se assemelham se usarmos a versão dos objetos apresentada no livro de 1952, quando elementos de racionalização e compensações por dissonância já deviam estar presentes, conforme discutimos no texto do artigo, sob o título “OBJETOS”. O aspecto mais fiel, reforçamos, seria aquele constante no relatório da época.

      Em despeito desses elementos, reiteramos nossa avaliação do caso como tendo Relevância 2 (não máxima), uma vez que envolve apenas uma testemunha não corroborada por outros elementos.

      Agradecemos a contribuição. Vamos incorporar nossa opinião sobre a hipótese dos H-229 ao texto.

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