Histerias Coletivas

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"Multidão Dançando", Donald Friend (1945)

O público em geral costuma usar o termo histeria coletiva para fazer referência a um conjunto heterogêneo de fenômenos estudados pela psicologia social.Collective Delusions: A Skeptic’s Guide. Robert E. Bartholomew. Acesso em 21/09/2010. Publicação original em Skeptical Inquirer, 1997, 21(3):29-33. Esse fascinante campo de pesquisa surgiu no século XX, com a pretenção de criar uma ponte entre a psicologia e as ciências sociais. Ele estudaria, segundo Aroldo Rodrigues, as manifestações comportamentais suscitadas pela interação de uma pessoa com outras pessoas, ou pela mera expectativa de tal interação.Psicologia social. Wikipédia. Aceso em 30/11/2009.

Uma parte significativa de avistamentos em massa de Discos Voadores, e outros fenômenos fortianos envolvendo grupos, são descartados como casos de histeria coletiva, muitas vezes por exclusão, sem preocupação em avaliar os requisitos necessários para um enquadramento.Veja Histeria coletiva afeta 600 meninas no México: a conexão OVNI. Em Ceticismo Aberto. Faremos uma análise mais detalhada adiante. Acesso em 04/12/2009. As histerias coletivas vêm recebendo luz apenas muito recentemente e, em seu estágio atual, não são capazes de explicar grande parte das ocorrências a elas atribuídas pelos leigos.

Diversos fatores psíquicos são motivadores do comportamento social. Raul Briquet elencou inteligência, instinto, agressividade, hábito, sugestão, imitação e simpatia.Vida e Obra de Raul Carlos Briquet. Boletim Academia Paulista de Psicologia. Ano XXIV, nº 1/04: 9-14. p. 12. Acesso em 21/09/2010. Outros fatores, ligados ao convívio, como grupos, eu social, personalidade, adaptação, preconceito racial, liderança, opinião pública, multidão e revolução também exerceriam sua influência.Históricos cursos de Psicologia Social no Brasil. Psicologia Social, vol.16, n°2, Porto Alegre, 2004. Acesso em 02/12/2009.

Dos vários fenômenos que são indistintamente nomeadas pelo público como histerias coletivas, quatro nos são de particular interesse: pré-disposições culturais, comportamentos de manada, doenças psicogências em massa e ilusões coletivas. Essas categorias abrangem grande parte das ocorrências que possam ser consideradas como insólitas e entende-las auxilia a avaliar os limites do seu poder explicativo.

PRÉ-DISPOSIÇÕES CULTURAIS

Autoflagelação de xiitas no Afeganistão

Comportamentos sociais perfeitamente admissíveis em certas culturas podem ser considerados anormais por outras. Essa incompreensão pode levar o grupo socialmente dominante a classificar um evento particular como uma histeria coletiva. De fato, a pré-disposição cultural pode levar a situações aparententemente bizarras de comportamento. Um exemplo são as autoflagelações em massa de mulçumanos xiitas no ritual do Ashura, que envolvem mutilações e estados de transe.A imagem que usamos acima é suave. Algumas mais impactantes podem ser vistas na Galeria da Folha.com. Acesso em 21/09/2010.

A Ashura é realizada no décimo dia do Muharran, mês sagrado do calendário lunar muçulmano.Muharram. Wikipédia. Acesso em 21/09/2010. Segundo a tradição xiita, foi nesse dia que Imã Hussein, neto do Profeta Maomé, foi assassinado em um cerco na cidade de Karbala, às margens do Rio Eufrates, onde é hoje o território do Iraque. Durante o Ashura, os xiitas se autoflagelam usando facas, espadas e outros objetos cortantes, além das próprias mãos. A intenção é relembrar os sacrifícios da família do Profeta. Comportamentos desse tipo não devem ser confundidos com patologias, mesmo quando se apresentam noutros contextos.

Não podemos, de forma alguma, psiquiatrizar as pessoas que não comungam a mesma crença religiosa ou mesma ideologia política tradicional do sistema. Se assim fosse, seria manifestação de loucura um cristão vivendo na China, onde existem mais de um bilhão de budistas, ou um muçulmano em auto-flagelação em nosso meio, tradicionalmente cristão e coisas parecidas.Crimes Esotéricos. Ballone GJ, Moura EC. Revisto em 2008. Acesso em 25/11/2009

Comportamentos grupais advindos de pré-disposição cultural são relativamente fáceis de caracterizar. Eles dependem da clara sedimentação de conceitos e valores, sendo muitas vezes fruto de anos de formação. As ações são concientes e voluntárias, recebendo apoio e aprovação do grupo com o qual os indivíduos se identificam. A famosa histeria coletiva em Salem, sem dúvida, foi dessa natureza.

A cidade de Salem, em Massachusetts, EUA, é famosa por sua “caça as bruxas” de 1692. Deflagrada pelas acusações de quatro meninas, uma comunidade Puritana, temerosa da danação eterna, entrou em pânico ao acreditar que as bruxas estavam entre eles. No momento em que os acontecimentos chegaram ao fim, mais de 20 pessoas haviam sido condenadas: 19 foram enforcadas, uma pereceu esmagada por pedras e outras quatro morreram na prisão. Um pouco tarde, em 1957, a pequena comunidade teve que pagar uma restituição às famílias daqueles que haviam sido vítimas da chamada “histeria coletiva”.Bartholomew, R.E. (1995). Mass Hysteria: A Social History of the Strange. Durango,Colorado, Hollowbrook. Citado em Mass Hysteria, de Marc D. Feldman, M.D. Acesso em 22/11/2009.

Ainda que se possa questionar a influência de outros fatores emocionais nos julgamentos, a comunidade Puritana, temerosa da danação eterna, agiu conforme crenças profundamente sedimentadas, não havendo nenhuma anomalia particular na sucessão dos fatos. De modo geral, histerias coletivas advindas de pré-disposições culturais podem ser adequadamente explicadas sem grande dificuldade.

COMPORTAMENTOS DE MANADA

O princípio básico da manada é que, na ausência de informações completas, um indivíduo tende a seguir a maioria, ou a um líder, que supostamente estaria mais bem informado e preparado para tomar decisões.Comportamento de manada. Wikipédia. Acesso em 22/09/2010.

Escolher a partir da decisão dos outros pode ser um atalho cognivo de origem biológica. Mostre dois cavalos para uma égua e deixe ela escolher o que acha mais interessante. Agora, coloque outra égua junto do cavalo que ela dispensou. O animal voltará atrás e escolherá o macho desprezado. Várias espécies de animais demontram comportamento semelhante.Os robôs que lideram as baratas. Jornal da Ciência. Por Fernando Reinach, em 14 de fevereio de 2008. Não se trata das fêmeas preferirem machos acompanhados, mas que na ausência de informações elas tendem a optar por aquilo que já foi julgado e testado por outra.

Em seres humanos, a força da opinião dos outros pode ser ainda mais influente. Solomon Asch desenvolveu um experimento onde se pode observar como o julgamento individual é influenciado pelo grupo.Asch conformity experiments. Wikipédia. Acesso em 31/07/2010. Em ambiente controlado, uma pessoa cercada por atores é inquirida com perguntas simples, como “Quem é o atual presidente?”. Os atores eram instruídos a dar respostas deliberadamente erradas. O resultado é que um terço das pessoas ignora o que sabe ser verdadeiro, dando uma resposta errada caso um grupo insista que ela não está correta.

Essas tendencias individuais ganham proporções vertiginosas quando se envolvem multidões. Originalmente empregado para descrever o comportamento animal, o comportamento de manada também se aplica a seres humanos.

Quando pessoas se reúnem em grandes grupos, suas reações tendem a se tornar instintivas e primitivas. Esse fenômeno é observado em qualquer lugar onde muitas pessoas se aglomerem, incluindo jogos de futebol, salas de aula e o mercado finaceiro. As pessoas deixam de ser indivíduos e passam a ser multidão, assumindo características comportamentais próprias.

Não importam os indivíduos que a componham, nem quão semelhantes ou diferentes sejam os estilos de vida, ocupações, personalidade e inteligência, o fato de terem se transformado em multidão confere-lhes uma espécie de mente coletiva, que os faz sentir, pensar e agir de maneira muito diversa de seu modo de sentir, pensar e agir como indivíduos, ou seja, caso tivessem continuado isolados.Gustave LeBon, em The Crowd (1897), citado pelo psiquiátra Alexander Elder em Como se Transformar Em Um Operador e Investidor de Sucesso. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. p. 62.

Como ocorre com a maioria dos animais que vive em grupos, o primeiro reflexo da multidão é procurar um líder. A força social de uma liderança reconhecida é amplamente demonstrada pelos experimentos da psicologiaPesquise sobre o Experimento de Stanley Milgram. e da psicologia social. Quando em grande número, as pessoas seguem suas lideranças, muitas vezes de maneira acrítica e inconsequente.

Nas multidões, contudo, raramente há um líder reconhecido. Assim, a massa passa a liderar a si mesma, com cada indivíduo seguindo a maioria ou aqueles que estiverem mais próximos. Essa dinâmica explica a convergência de comportamento de diversos animais, como bandos de aves,Revoada de pássaros assusta moradores na Califórnia. G1, com agências internacionais. Acesso em 28/12/2009. cardumes de sardinha, manadas de gnu e multidões de pessoas.

Não se trata de mediocridade da massa, como alguns podem julgar. O mecanismo se deve a um instinto, com raízes aparentemente profundas, que bombardeia o inconciente dos indivíduos com a mensagem de que a maioria ou a pessoa mais capaz do grupo, o líder reconhecido, deve estar com a razão. O processo tende a cessar quando há informações disponíveis e os indivíduos raciocinam sobre elas. A manada, contudo, desperta instintos de sobrevivência nos indivíduos, de modo que eles responde melhor a emoções primitivas, como medo, entusiasmo, alegria e raiva, no lugar de argumentos lógicos. Nenhuma pessoa média fica impassível na torcida de um estádio lotado, mesmo que não goste do esporte. Ela tenderá a ser contagiada pelo ânimo da multidão, neutralizando a influência apenas mediante grande esforço.

Os sentimentos de identidade e segurança propiciados pela multidão são outros elementos fundamentais que envolvem a psicologias das massas. O sentimento de segurança gera uma sensação de suposta impunidade que favorece reações precipitadas. Em Massa e Poder, Elias Canetti explica como a sensação de impunidade é fator essencial para desencadear a violência nas multidões, fenômeno que ele chama de massa de acossamento.

Uma razão importante para o rápido crescimento da massa de acossamento é a ausência de perigo na empreitada. Esta não oferece perigo nenhum, pois a superioridade da massa é enorme. A vítima nada lhe pode fazer. (…) O assassinato permitido substitui todos aqueles aos quais se tem de renunciar, aqueles que, uma vez cometidos, ter-se-ia de temer a imputação de pesadas penas. Um tal assassinato – permitido, recomendado, sem perigo algum e partilhado com muitos outros – afigura-se irresistível à grande maioria da humanidade.Elias Canetti, no livro Massa de Poder. Citado por Marcos Guterman, em Uniban e o linchamento moral: a culpa é da vítima. Acesso em 30/11/2009.

Assim, as histerias coletivas advindas de comportamentos de manada caracterizam-se quando a multidão, geralmente confiante numa informação que considera crível ou confusa pelo excesso de emoções, segue um líder – seja ele uma pessoa, uma entidade ou a própria multidão. Elas também envolvem o despertar de sentimentos primitivos, de modo que rompantes de violência também podem se fazer presentes.

DOENÇAS PSICOGÊNICAS EM MASSA

"Crowd 47", Misha Gordin (2000)

As doenças psicogênicas em massa, ou doenças com causas psíquicas que acometem simultaneamente um grande número de pessoas, são os eventos que mais propriamente se adequam ao termo histeria coletiva e os menos comprendidos pela psicologia social contemporânea.

A histeria começou a ser estudada na Grécia Antiga, onde era entendida como uma doença tipicamente feminina. Na Idade Média, Thomas Willis a considerava como uma epidemia abrangente, que incluía neuroses, psicoses, catatonias, epilepsias e quadros degenerativos como as demências e o mal de Parkinson. Tamanha generalidade levou o dignóstico a perder precisão e crédito, só recuperados no século XX, primeiramente com os estudos de Jean-Martin Charcot e, depois, com Sigmund Freud, dando origem a psicanálise.Evandro Gomes de Matos; Thania Mello Gomes de Matos; Gustavo Mello Gomes de Matos. Histeria: uma revisão crítica e histórica do seu conceito. Jornal Brasileiro de Psiquiatria: Volume 54, Número 1 – 2005. Acesso em 23/11/2009.

Atualmente, a histeria pode ser entendida como uma neurose onde ocorre transformação de emoções em manifestações físicas, com graus de angústia e exagero acerca das impressões sensoriais, bem como eventuais simulações relacionadas com vários transtornos.O Paciente Histérico. Uyratan de Carvalho. Outubro de 2008. Acesso em 24/11/2009. A formação dos sintomas tem por base o mecanismo da conversão, conceito psicanalítico que consiste na transposição de um conflito psíquico em efeitos físicos (somáticos). Sua característica básica é ter uma significação simbólica, onde o corpo exprime representações recalcadas.Somatização e conceitos limítrofes: delimitação de campos. José A. Bombana. UNIFESP/EPM. Acesso em 24/11/2009.

Vários traços característicos são especificados para o quadro da histeria, como carência afetiva, necessidade de ser o centro das atenções, postura de vítima, sedução, dependência emocional, teatralidade, dramaticidade, egocentrismo, imaturidade, apego ao devaneio e propensão a obter ganhos secundários com sintomas de doença.Evandro Gomes de Matos; Thania Mello Gomes de Matos; Gustavo Mello Gomes de Matos. Histeria: uma revisão crítica e histórica do seu conceito. Jornal Brasileiro de Psiquiatria: Volume 54, Número 1 – 2005. Acesso em 23/11/2009. Atualmente, os sintomas histéricos estão distribuidos numa série de patologias bem tipificadas, entre transtornos de personalidade, especialmente a histriônicaTranstorno de Personalidade Histriônica. Wikipédia. Acesso em 22/09/2010., limítrofeTranstorno de Personalidade Limítrofe. Wikipédia. Acesso em 22/09/2010. e dependenteTranstorno de personalidade Dependente. Wikipédia. Acesso em 22/09/2010.; transtornos de ansiedadeTranstornos de ansiedade. Wikipédia. Acesso em 22/09/2010.; transtornos dissociativos, como o de identidade, por exemplo;Transtorno Dissociativo de Identidade. Wikipédia. Acesso em 22/09/2010. e transtornos de estresse pós-traumático.Transtorno de estresse pós-traumático. Wikipédia. Acesso em 22/09/2010.

Histerias podem apresentar alterações psicossomáticas – sintomas físicos causados por motivos psíquicos, envolvendo transtornos cardiovasculares, respiratórios, endócrinos, gastrintestinais, dermatológicos, reumatológicos, imunológicos e dores crônicas.Da Emoção à Lesão. Ballone GJ. PsiqWeb. Revisto em 2007 Uma das características mais significativas desses sintomas é a subjetividade.

Os sintomas podem se revezar entre si e não necessariamente são os mesmos para todos os indivíduos, apesar de se tratar da mesma patologia. Estes sinais de padecimento estão claramente ligados às excitações, comoções, preocupações, etc, e podem desaparecer sem deixar vestígio algum de como vieram e de como se foram.Histeria. Sonia Flores; Sara Pereira; Natalia Furtado; Mariana Silveira.Salvador: CienteFico, Ano II, v. I, ago-dez 2002. Acesso em 23/11/2009

Resta claro que, em crises histéricas, pessoas diferentes reagem de maneira diferente, mesmo diante do mesmo estímulo. Evidentemente, pessoas sem traços histriônicos estão bem menos propensas a agir como qualquer outra que os tenha. Então, como reações tipicamente subjetivas podem afetar simultaneamente um grande número de pessoas nas chamadas doenças psicogênicas em massa? Entender os mecanismos de contágio parece ser o elemento chave para a questão. Eles não são completamente compreendidos, mas o conhecimento adequado permite separar os casos anômalos daqueles que estão dentro das nossas atuais possibilidades explicativas.

A única teoria de contágio psíquico que pode hoje ser cientificamente sustentada é a da sugestão. Conforme Hippolyte Bernheim, a sugestão consiste na influência provocada por uma idéia apresentada e aceita pelo cérebro.Ver: A Naturalização dos Fenômenos Sobrenaturais e a Construção do Cérebro “Possuído”: Um Estudo da Medicalização do Transe e da Possessão No Século XIX. Valéria Portugal Gonçalves. Dissertação de mestrado, UFRJ, 2008. Acesso em 03/12/2009.)A sugestão, assim, é uma idéia objetiva que deve ser apresentada. Indivíduos naturalmente mais propensos tendem a responder melhor à sugestão, sendo a sucetibilidade um traço característico das personalidades histriônicas.Transtornos de Personalidade. PsiqWeb, 2005. Acesso em 30/12/2009. Quanto mais crível a sugestão, maior seu poder de contágio e maior o número de pessoas que ela tende a afetar. Os sintomas psicossomáticos se caracterizariam pela ausência de motivos físicos ou ambientais para que se manifestem.Mass Psychogenic Illness. Em familydoctor.org. Acesso em 21/11/2009. Esses princípios podem ser identificados nas características das doenças psicogênicas em massa, como mostra o quadro a seguir.Ver Mass Psychogenic Illness: Role of the Individual Physician, de TIMOTHY F. JONES – M.D. Tennessee Department of Health, Nashville, Tennessee. Acesso em 21/11/2009. (Adapted with permission from Grundy SM. Small LDL, atherogenic dyslipidemia, and the metabolic syndrome [Editorial]. Circulation 1997;95:1-4.).

Características comuns da Doença Psicogênica em Massa

1. Muitas vezes ocorre após a exposição a um estímulo ambiental (odor, alerta de emergência iminente, rumores, relato da presença de toxinas, etc);

2. Mulheres são proporcionalmente mais afetadas que homens;

3. Adolescentes e crianças são afetadas;

4. Pacientes que sofrem estresse psicológico ou físico são afetados;

5. Sintomas se propagam e se resolvem rapidamente;

6. Sintomas inconsistentes com uma determinada biologia (etiologia);

7. Os sintomas podem incluir hiperventilação ou desmaio;

8. Os sintomas com baixa associação a exames físicos ou laboratoriais;

9. Sintomas espalhados por “contágio de contato” (isto é, ver ou ouvir outra pessoa doente provoca sintomas);

10. A doença pode reaparecer com o retorno ao ambiente do foco inicial;

11. A doença pode aumentar com o vigor ou prolongamento da emergência, ou sua reprecussão na mídia.

Observa-se que as características envolvem a presença objetiva de sugestão (itens 1, 9 e 11), que indivíduos mais sucetíveis são proporcionalmente mais afetados (itens 2, 3, 4, 9, 10 e 11) e que não há relação dos sintomas com motivações físicas (5, 6, 7, 8, 9 e 11). O pesquisador François Sirois levantou estatísticas para uma grande amostra envolvendo ocorrências escolares que permitem análises adicionais.Epidemic Hysteria: School Outbreaks 1973-1993. François Sirois. Med Principles Pract 1999;8:12–25. Acesso em 02/12/2009.

Número de pessoas afetadas (* = dados entre 1963 e 1972)
<10 10-30 30-100 >100 ? Total
1973-1993 4 11 18 12 0 45
1872-1972 8 15 4* 4* 1 32
Duração dos surtos (dias)
1 1-7 7-30 >30 ? Total
1973-1993 23 9 6 6 2 45
1872-1972 4 3 12 12 1 32
Idade das pessoas afetadas
Anos 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 Total
Número 1 2 6 8 10 17 21 24 31 25 23 14 12 10 20 208
Sintomas (1973–1993)
Desmaios 10
Gritos e risos 9
Dores de cabeça 8
Dores abdominais 8
Tonturas 5
Náuseas 3
Conceiras 2
Total 45

Ao contrário do comportamento de manada, grupos restritos são mais sucetíveis a sugestões psicossomáticas. Como as reações são subjetivas, é muito mais difícil uniformizá-las por contágio em um grande número de pessoas. Os dados da amostra confirmam que a maioria das ocorrências, cerca de 79%, afeta grupos até o tamanho de uma sala de aula grande, com cerca de 100 pessoas. Há ocorrências passageiras e outras mais duradouras, com grande parte, cerca de 36%, se extingindo em apenas um dia. Por motivos não bem compreendidos, os surtos mostram tendência a durar menos e afetar mais pessoas nos anos mais recentes.

Uma vez que a amostra é composta por indivíduos em fase escolar, a distribuição das ocorrências por idade dizem pouco quanto a sucetibilidade. Tanto crianças pequenas quando adolescentes são mais sugestionáveis que a média da população. A distribuição é próxima da normal, com pico aos 12 anos e uma incidência outline aos 18. Pela amostra, em média, pré-adolescentes entre 10 e 14 anos estariam mais propensos aos surtos.

O quadro de sintomas é especialmente relevante. Nota-se com clareza que todas as reações listados são tipicamente histriônicos, envolvendo exageros (risos, gritos, desmaios) ou percepções distorcidas (dores, tonturas, náuseas, coceiras). Como na histeria singular, ferimentos reais, assim como ações que ponham em risco direto a segurança individual, estão fora do âmbito sintomático das doenças psicogênicas em massa.

Alguns autores sugerem subdividir as doenças psicogênicas em massa para uma melhor tipificação diagnóstica. Simon Wessely, por exemplo, propõe a bipartição em transtornos motivados por ansiedade e transtornos motores. Os primeiros seriam de curta duração, gerados por estresse extremo e imediado. O segundo seria caracterizado pelo acúmulo lento de estresse, tendo consequencias mais longas e graves.Wessely, Simon. (1987). “Mass hysteria: two syndromes?” Psychological Medicine, 17:109-120. Qualquer dos casos, contudo, pode ser enquadrado nas características genéricas que traçamos, sendo suficientes para as nossas necessidades.

ILUSÕES COLETIVAS

Em sua definição mais comum, as ilusões coletivas fazem referência à expansão espontânea e temporária de falsas crenças em uma determinada população.O “Gaseador Louco” de Mattoon. Robert E. Bartholomew. Ceticismo Aberto. Acesso em 23/09/2010. Publicado originalmente em REALL News, abril/1999. O conceito é abrangente, permitindo que mesmos os boatos mais rudimentares sejam enquadrados na categoria. O mais adequado, contudo, é assumir que a histeria coletiva só seria caracterizada quando tais boatos desencadeiam reações extremadas na população.

Basicamente, uma ilusão coletiva nasce com um rumor de forte apelo emocional. Sua implantação pode ser proposital ou espontânea e costuma envolver alguma possível ameaça à segurança das pessoas. Ele cresce pela teia social, deixando a população estressada e em alerta. O rumor costuma conter uma retórica simples e clara, fazendo com que consiga sobreviver a uma análise lógica superficial e possa ser assimilado e reproduzido com facilidade.

Em um primeiro momento, como ocorre em comportamentos de manada, a credibilidade da fonte do rumor, ou a opinião do líder reconhecido sobre ele, é importante. Depois, sua consistência vai sendo progressivamente testada pela sociedade, que pode trabalhar contra ou a favor dele, conforme um conjunto complexo de fatores que envolvem capacidade crítica e ideologia social. Rumores consistentes, ou apoiados pela ideologia social, podem perdurar por muitos anos. Os menos consistentes tendem a ser mais efêmeros. Independentemente da duração, contudo, os resultados em termos de comportamento social podem ser severos.

Nos EUA da década de 1940, por exemplo, diante dos boatos oficiais de que haviam perigosos espiões comunistas infiltrados no país, eram comuns delações infundadas e ameaças de linchamento de supostos agentes vermelhos.Caça as Bruxas em pleno Século XX. Planeta Educação. Acesso em 23/09/2010. Em virtude dos boatos de alta virulência e letalidade da gripe H1N1 em 2009, houve uma corrida desenfreada em busca de vacinas e pessoas com tendências histriônicas podem até ter acreditado apresentar os sintomas.A gripe H1N1 e a histeria coletiva. Jornal da Orla, em 26 de julho de 2009. O medo da presença evidente de armas de destruição em massa no Iraque fez o mundo licenciar ações que não seriam toleradas em outro contexto.Iraque e armas de destruição em massa. Wikipédia. Acesso em 23/09/2010.

A LOROTA DO IRAQUEA crise é dos jornais – e não do jornalismo. Revista Veja, Edição 2117, 17 de junho de 2009. p. 86. Acesso em 27/10/2010.

A imprensa americana caiu na lorota de que havia armas de destruição em massa no Iraque por algumas razões. Primeira: os atentados de 11 de setembro criaram um clima de espanto. Uma coisa é falar de guerra lá longe, na Normandia, no norte da África, falar do general Erwin Rommel, de Mussolini, Hitler. Outra é sofrer hostilidades de forças estrangeiras dentro de Nova York. Era inacreditável, e George W. Bush capitalizou isso. Ganhou enorme poder. Era o nosso defensor contra futuros ataques e o árbitro sobre o que era bom para nós. Fomos induzidos a acreditar que o governo tinha informações que nem o público nem o Congresso conheciam. A imprensa, muito crédula e um pouco ingênua, entrou no clima. Segunda razão: havia um fervor patriótico. A imprensa se sustenta com publicidade, e o pessoal tinha receio de ser percebido como antipatriótico – o que naqueles dias era o mesmo que ser anti-Bush – e acabar financeiramente punido, com os anunciantes debandando. O comediante Bill Maher fez uma brincadeira em seu programa na rede ABC, dizendo que os terroristas podiam ser chamados de tudo, menos de covardes, e foi retirado do ar. Essa atmosfera durou uns dois anos. Terceira: os jornais, Washington Post, The New York Times, efetivamente acreditavam no governo, e, por último, os repórteres que cobriam Washington eram muito diferentes dos repórteres do meu tempo, que cobriram a Guerra do Vietnã nos anos 60. Não eram céticos.

É oportuno destacar que as ilusões coletivas nunca são imotivadas. Seu efeitos sempre envolvem um substancial contexto emocional, sendo inequivocamente vinculados ao nível da tensão social provocada e da penetração social atingida pelo boato. Em linhas gerais, essa ansiedade pode gerar, conforme a situação concreta, reações histriônicas em pessoas sucetíveis, comportamentos de manada em grandes aglomerações ou reações defensivas extremadas em pessoas com essa inclinação. Construir abrigos nucleares no quintal, andar com a própria garrafa de água destilada para consumo ou alvejar com tiros tudo o que se mova são alguns exemplos dessas últimas.

OUTRAS CATEGORAIS

Gordo nas mãos dos Fratelli, The Goonies (1985)

Ainda mais situações podem vir a ser classificadas como histerias coletivas. Algumas manifestações fisiológicas, por exemplo, podem se propagar involuntariamente dos indivíduos para um grupo, o que poderia justificar o emprego do termo. Um caso ilustrativo e particularmente repugnante é o da regugitação, onde o contágio funciona por náusea direta.

Francis Fratelli: “Conte tudo!!! Tudo!!!”

Gordo: “Tá bom! Eu falo! Na terceira série, eu colei na prova de história. Na quarta-série, eu roubei a peruca do meu tio e colei na cara pra fazer o papel de Moisés na peça da escola. Na quinta série, empurrei minha irmã da escada e culpei o cachorro… Quando minha mãe me mandou para o acampamento para gordinhos, na hora do almoço eu cuspi tudo e fui mandado embora… mas a pior coisa que já fiz foi quando misturei vômito falso em casa, levei escondido ao cinema, subi nos camarotes e aí fiz um barulho tipo – blearrrrrgh, bleaaaaaargh – e joguei lá embaixo sobre as pessoas na platéia. Foi horrível, todas as pessoas enjoaram e começaram a vomitar umas em cima das outras… Eu nunca me senti tão mal em toda a minha vida!!!

Francis Fratelli: “Estou começando a gostar desse garoto”.The Goonies, 1985. Trecho da cena onde o Gordo (Chunk) é interrogado pelos irmãoes Fratelli.

O bocejo também é contagioso. Apensar de desconhecermos casos de bocejo que tenham sido classificados como histeria coletiva. O apontamento, contudo, é interessante como ilustração de uma parte do mecanismo involuntário de contágio.

Sabemos que muitos dos bocejos são causados por sugestão: eles são contagiosos. Você não precisa ver uma pessoa bocejando para involuntariamente bocejar também. Ouvir uma pessoa bocejando ou até mesmo ler sobre o bocejo pode causar a mesma reação. É provável que você boceje pelo menos uma vez enquanto estiver lendo este artigo.

O bocejo contagioso, porém, vai muito além da mera sugestão. Estudos recentes mostram que o fenômeno também está relacionado com nossa predisposição à empatia, à capacidade de entender e se conectar com os estados emocionais dos outros. Isso parece estranho, mas o fato de você ser ou não suscetível ao bocejo contagioso na verdade pode estar relacionado à quantidade de empatia que você sente pelos outros.O bocejo é contagioso?. Por Joshua Clark – traduzido por HowStuffWorks Brasil. Acesso em 29/12/2009.

Também se sabe que o riso é contagioso. Ele, inclusive, está presente em muitos casos de histeria coletiva. Há várias teorias sobre sua função em seres humanos. As mais simples e claras envolvem algum tipo de mecanismo de socialização, apesar de haver divergências.Os Filósofos, o Riso e a Neurociência. Por João de Fernandes Teixeira. Revista Filosofia. Acesso em 23/09/2010. Casos histéricos envolvendo risadas compulsivos não são incomuns. Se você já viu ou teve um aceso de risos, provavelmente vai voltar a rir dele, caso relembre com exatidão de seu contexto.Faça dois testes sem valor científico: Tente nao rir… (YouTube, Acesso em 29/12/2009) e Riso contagiante (YouTube, Acesso em 29/12/2009). Casos extremos, envolvendo muitas pessoas, ainda não são satisfatóriamente compreendidos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise de casos envolvendo possibilidade de histeria coletiva pode ser muito complexa. Conhecer mais profundamente seus mecanismos permite uma filtragem mais efetiva do que pode ou não ser fruto de algum evento anômalo, não sendo satisfatório o simples rótulo de “histeria” como explicação genérica.

As pré-disposições culturais são ações coletivas voluntárias e conscientes. Geralmente decorrem de uma aculturação atencipada e envolve a noção de aprovação pelo grupo. Elas podem desencadear comportamentos muito radicais, que comprometem a segurança e integridade física dos indivíduos. Não se pode tolerar uma explicação envolvendo essa categoria sem que a aculturação esteja claramente identificada.

Os comportamentos de manada são ações coletivas voluntárias, mas inconcientes. Envolvem um instinto primitivo de seguir a maioria e pode despertar rompantes de violência. Algumas pessoas envolvidas têm dificuldade de explicar suas reações depois do ocorrido, quando questionadas. Não há comportamentos de manada em ambiente livre de tensão ou envolvendo atividades complexas.

Doenças psicogênicas em massa são pouco conhecidas, mas possuem características específicas. Em geral devem envolver sintomas histriônicos, afetar proporcionalmente pessoas mais sucetíveis, durar pouco e transmitir-se por sugestão. A ausência de qualquer dessas características justifica pesquisa. Não há doença psicogênica em massa envolvendo traumas físicos reais ou onde não se identifica um mecanismo de sugestão entre os afetados.

As ilusões coletivas compõem a categoria mais flexível, uma vez que permitem o aparecimento de diversas manifestações paralelas. Ela, contudo, exige o estabelecimento, penetração e consolidação de um boato que gere um estágio considerável de tensão e seja considerado crível pelos afetados. Mais uma vez, não devem haver sintomas individuais que estejam fora do espectro histriônico.

FICHAMENTO

Data: 20110305 | Características: .

TAGS: Análises, Mente.

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