Dissonância Cognitiva

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Dissonância cognitiva é um termo da psicologia que descreve a tensão psíquica resultante do conflito entre cognições incompatíveis entre si ou com crenças de nível mais primário. A dissonância acontece a partir de inconsistências lógicas entre crenças, idéias ou percepções, tomando a forma de ansiedade, culpa, vergonha, fúria, embaraço, stress e outros estados emocionais negativos. O desconforto induz a mente a sublimar, produzir ou alterar cognições, de forma a reduzir a quantidade de dissonância entre elas.Dissonância cognitiva. Wikipédia. Acesso em 13/11/2010.

O primeiro grande passo para o desenvolvimento da teoria da dissonância cognitiva envolveu um grupo ufológico.Toda a informação presente nesse histórico advém do livro  Mente e Cérebro, de Lauren Slater. Rio de janeiro: Ediouro, 2004. pp. 138-144. Em 1954, uma dona de casa chamada Marion Keech, em Chicago, afirmou ter tido a visão que no dia 21 de dezembro daquele ano, à meia noite, o mundo se afogaria num dilúvio de proporções bíblicas. A mensagem lhe teria sido entregue por uma divindade extraterrestre chamada Sananda, nativa de um planeta chamado Clarion. Mas aqueles que acreditassem no poder de Sananda seriam salvos por um disco voador antes do fim. Marion participava de um grupo místico de estudo de discos voadores.Entenda nossa classificação das diferentes vertentes ufológicas no artigo Ufologia. Alguns acreditaram na história e tomaram decisões drásticas a espera de um glorioso resgate antes do afogamento do mundo.

A história pode parecer uma anedota agora, mas ela envolveu profundamente àquelas pessoas. Muitas se demitiram de seus empregos, romperam com as famílias e se desfizeram de todos os seus bens materiais. Estavam realmente comprometidas. O assunto torno-se público e um professor de psicologia novaiorquino, chamado Leon Festinger, ficou interessado em saber qual seria o comportamento daquelas pessoas caso a previsão se revelasse falsa, considerando que suas crenças e atitudes estavam amplamente noticiadas. Ele infiltrou a si e alguns de seus alunos no grupo, que fizeram observações e tomaram notas cuidadosas no decorrer do todos os acontecimentos.

O que aconteceria quando chegasse a meia-noite do dia 21 de dezembro de 1954 e nenhuma espaçonave aterrissasse para o resgate ou nenhum a chuva caísse? O grupo perderia a fé? Como os seres humanos reagem quando uma profecia falha? As questões eram muito instigantes, sem dúvida.

Leon Festinger e Marion Keech

Na véspera do dilúvio, Marion Keech e Leon Festinguer, cada um com seus seguidores, reuniram-se na casa dela. O primeiro grupo aguardando o inevitável cataclisma; o segundo, observando atentamente e tomando notas. O grupo recebia instruções dos homens do espaço se fazendo passar por pessoas pregando peças ao telefone. Por exemplo, um dos que telefonaram disseram: “Ei, tem um dilúvio no meu banheiro, quer vir celebrar?”. A mensagem era tão obviamente um sinal secreto de Sananda que Keech e seus seguidores mostraram satisfação. Outra mensagem veio na forma de um misterioso pedaço de lata encontrado no tapete. Seria um aviso para que todos os membros removessem pedaços de metal de suas roupas antes de entrar na espaçonave, que chegaria em apenas dez minutos! Houve uma histeria frenética de homens e mulheres arrancando botões, ganchos de sutiã e zíperes metálicos de suas roupas.

Quando o relógio bateu à meia-noite, nenhum disco voador havia pousado. Não havia, tampouco, sinais de chuva. Alguns membros do culto, visivelmente chocados, choravam com as mãos no rosto. Outros simplesmente se prostraram nos sofás, com olhar perplexo fixado no vazio. Outros deles, ainda, tomavam notas. Lá fora, grandes holofotes corriam o jardim. Não era um UFO, mas sim a imprensa pronta para se divertir um pouco.

O grupo, até então, vinha se negando a dar pronunciamentos abertos à imprensa, mas uma transformação se verificou. Marion Keech irrompia em prantos momentos antes de receber uma nova e providencial mensagem: Sananda dizia que o pequeno conjunto de pessoas ali reunido havia irradiado tanta luz, tanta energia positiva, que resolveu-se poupar o planeta do afogamento. Os seres de “alta densidade” passavam instruções para que o grupo entrasse em contato com o maior número possível de veículos de comunicação, para informar ao público sobre o que ocorrera. Festinger e sua equipe viu isso como uma fascinante e anti-intuitiva tentativa de convencer o público, e justificar para si mesmos, de que as ações e crenças do grupo não tinham sido em vão.

Depois do estudo do culto, Festinger começou a explorar outras dimensões da teoria. Ela apresentou desdobramentos poderosos e surpreendentes, chegando a ser chamada de “melhor amiga do controlador de mentes”Levine, Robert. The Power of Persuasion – How We’re Bought and Sold  (John Wiley & Sons 2003). p. 202, citado por Dicionário do Cético. Acesso em 07/12/2010.. A dissonância cognitiva mudou definitivamente a história da psicologia.

A teoria da dissonância explicava, por exemplo, o fato há muito desconcertante de que, durante a Guerra da Coréia, os chineses tinham sido sinistramente eficientes em conseguir que os prisioneiros de guerra norte-americanos adotassem o comunismo. Os chineses faziam isso não por meio de tortura ou de grandes subornos dourados, mas meramente oferecendo aos prisioneiros um pouco de arroz ou doces em troca de um texto de ensaio antiamericano. Depois de escreverem o ensaio e ganharem o prêmio, muitos soldados vieram a se converter ao comunismo. Isso é estranho, especialmente porque tendemos a acreditar que a lavagem cerebral é realizada por meio de uma  série de furiosas aplicações de sabão cáustico ou de pilhas de prêmios reluzentes. Mas a teoria da relevância diz que “quanto mais mesquinha a recompensa” para se dedicar a um comportamento que é incompatível com as próprias crenças, mais provável é que a pessoa mude suas crenças. Faz um certo sentido distorcido. Se você se vender por um pedaço de doce, por um único cigarro ou por uma porção de arroz, será melhor inventar algum motivo convincente que explique porque o fez, a menos que sinta que é, simplesmente, um ser desprezível. Se não puder pegar de volta o ensaio, ou a mentira, então mudará suas crenças para que elas não voltem a incomodar e será salvo do desprezo. Os chineses eram mestres em entender intuitivamente a dissonância cognitiva; colocavam pequenas guloseimas nas palmas da mão e, com a força delas, conseguiam que homens adultos se abrissem e mudassem suas mentes bem moldáveis.Lauren Slater. Mente e Cérebro. Rio de janeiro: Ediouro, 2004. pp. 143-4.

Um experimento demonstrou que as pessoas tendem a valorizar suas decisões em detrimento das outras possíveis, mesmo quando essas últimas apresentassem vantagens se tivessem sido escolhidas. Outro, com calouros na faculdade que tentavam entrar numa fraternidade, mostrou que aqueles que passavam por trotes cruéis para a admissão se declaravam muitos mais fiéis à entidade do que aqueles que passaram por trotes leves.

Assim, Festinger e seus colegas conseguiram isolar experimentalmente quatro manifestação básicas de dissonância, amplamente confirmadas por outros pesquisadores em várias oportunidade. A idéia de que prêmios frugais aumentam o empenho em elaborar justificativa metais para as atitude foi chamada Paradigma da Recompensa Insuficiente. Ao tenaz esforço cognitivo para defender que convicções frustradas não foram em vão, chamou-se Paradigma da Crença/Desconfirmação. A tendência das pessoas valorizarem suas decisões em detrimento das outras possíveis foi chamada de Paradigma da Livre Escolha e a estima enfatizada pelo maior sacrifício de Paradigma da Obediência Induzida.Cognitive dissonance. Wikipédia. Acesso em 07/12/2010.

DISSONÂNCIAS E ANOMALIAS

Tendo a concepção teórica da dissonância cognitiva se iniciado num estudo sobre um grupo ufológico, não deixa de ser irônico que ela seja um fenômeno comum durante ocorrências fortianas. De fato, ela se manifesta largamente tanto em testemunhas quanto em investigadores. O que talvez surpreenda alguns, é que ela é observada indistintamente entre entusiastas e críticos da existência de fenômenos anômalos.

Absolutamente ninguém é imune aos efeitos da dissonância cognitiva, havendo diferenças consistentes apenas na forma de reagir a eles. Segundo Festinger, existiriam três maneiras não mutuamente exclusivas das pessoas lidarem com essa desconfortável situação:Leon Festinger. A Theory of Cognitive Dissonance. Stanford University Press, 1957.

1. Pode-se tentar substituir uma ou mais crenças, opiniões ou comportamentos envolvidos na dissonância;

2. Pode-se tentar adquirir novas informações ou crenças que irão aumentar a consonância existente, fazendo assim com que a dissonância total seja reduzida;

3. Pode-se tentar esquecer ou reduzir a importância daquelas cognições que mantêm um relacionamento dissonante.

As pessoas sempre possuem um conceito de realidade já estabelecido em suas mentes. Elas também tentam permanentemente manter uma reputação de sensatez e credibilidade, devido a valorização dada a esses atributos. Ocorrências julgadas anômalas desafiam os conceito de realidade, causando dissonância, além de ameaçar a reputação de sensatez e credibilidade. O cruzamento entre os paradigmas e possíveis reações à dissonância permite identificar e compreender quadros e situações frequentes em investigações fortianas, inclusive as ufológicas.

Por exemplo, quando confrontadas com fenômenos ufológicos de grau mais baixo, Contatos de Primeiro Grau, dependendo de sua reação à dissonância, alguns podem minimizar a ocorrência, mesmo não podendo identificar o que pode ter acontecido. Noutro extremo, pessoas que passem a declarar publicamente ter testemunhado um Disco Voador, tendem a reagir negativamente se as investigações levarem a concluir que a ocorrência tinha uma explicação comum. Elas não aceitam terem vendido sua sensatez por algo tão corriqueiro quanto Vênus, por exemplo. A reação tende a ser maior quando mais enfáticas foram suas declarações públicas da anomalia e mais triviais forem as explicações para o acontecimento, num típico Paradigma da Recompensa Insuficiente.

Contatos de grau mais alto tendem a gerar dissonâncias mais dramáticas. Mentes mais fechadas enfrentarão uma intensa batalha interna, tentado explicar como aconteceu o inconcebível, o que pode redundar em profunda ansiedade ou perturbações. Mentes mais flexíveis adotarão novas crenças, tentado acomodar o evento à sua concepção de mundo. As mais imaginativas poderão criar todo um novo arcabouço, montando fantasias e reinterpretando fatos para reforçar o evento inicial e diminuir a dissonância. Caso essa imaginação e fantasia venha de uma personalidade envolvente, podemos ter a formação de alguma espécie de seita, o que acreditamos se aplicar a alguns poucos casos de Contatados.Contatados, em Ufologia, são pessoas que alegam realizar comunicações periódicas com alienígenas. É importante destacar que julgamos casos baseados num eventos iniciais real como exceções, sendo mais comuns os picaretas e os efetivamente perturbados, que tratamos a parte.

Não apenas testemunhas, mas pesquisadores também são afetados. Tendo em vista preservar a consonância de suas cognições, investigadores selecionam sistematicamente os dados que favorecem seu paradigma de realidade, suprimindo, minimizando ou distorcendo aqueles que se contrapõem. Isso é observado tanto entre os que criticam quanto os que aceitam a existência de fenômenos fortianos. Pesquisadores que dispenderam grande volume de tempo e energia numa investigação específica tendem a defender incondicionalmente a conclusão que chegaram sobre ela, fechando os olhos para novos elementos, o que é explicável pelo Paradigma da Obediência Induzida.

Estar preparado para lidar de forma adequada com dissonâncias é um requisito essencial para uma pesquisa objetiva de fenômenos ufológicos e fortianos. Abrir mão de opiniões ou posições historicamente sedimentadas, como as do cético Rogério Mourão, ao disponibilizar-se para diálogos abertos com a comunidade ufológica,Veja Ronaldo Rogério de Freitas Mourão: O ceticismo radical pode dar espaco ao diálogo entre ufologos e astronomos. Revista UFO, Edição 130, fevereiro de 2007. e as do ufólogo Ubirajara Franco, ao assumir que não há vínculo claro entre os estranhos acontecimentos no Incidente em Varginha e Discos Voadores,“Enquanto que para quase todos os ufólogos o Caso Varginha é a prova indiscutível da visita de seres extraterrestres que, desafortunadamente, tiveram sua nave espacial espatifada e foram capturados vivos, não há qualquer evidência, indício e muito menos prova disto. Há provas dos fatos e testemunhais, aos montes. Nenhum dos depoimentos, contudo, oferece qualquer segurança para afirmativa de que se tratasse de seres extraterrestres.” [grifos no original]. Carlos Reis e Ubirajara Rodrigues. A Desconstrução de um Mito. São Paulo: Livro Pronto, 2009. p. 451. exige níveis apreciáveis de coragem e maturidade, justificados mentalmente pelo desejo de buscar apenas a verdade e não a defesa de opiniões já estabelecidas.

FICHAMENTO

Data: 20101209.

TAGS: Análises, Mente.

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