Conhecimento Estabelecido

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"Galileu Enfrenta a Inquisição" de Cristiano Banti (1857)

"Galileu Enfrenta a Inquisição", Cristiano Banti (1857)

Uma ciência que busca a verdade de forma imparcial é um entendimento superado desde a obra de Thomas Kuhn. Ele desenvolveu e trabalhou os conceitos de paradigma, ciência normal, anomalia, crise e revolução, demonstrando que a comunidade científica nem sempre confronta os fatos para tentar entende-los, muitas vezes abrindo mão do ideal da verdade para manter intactos conceitos e interpretações vigentes.Thomas Kuhn. A Estrutura das Revoluções Científicas. 7 ed. São Paulo:  Perspectiva, 2003. Publicação do original: 1969.

Em certa etapa do seu desenvolvimento, a investigação científica seria orientada por uma visão geral de mundo. Essa visão inclui não só as teorias científicas dominantes, mas princípios filosóficos, concepções metodológicas e procedimentos técnicos. A esse estado das coisas, Kuhn chamou de paradigma. A comunidade científica trabalha sob o paradigma vigente, investigando fenômenos inexplicados com o objetivo de enquadrá-los aos seus princípios, enquanto tenta resolver eventuais ambiguidades teóricas. Nesse período de ciência normal impera o consenso e a preocupação central é extender a aplicação do paradigma.

Problemas Alienígenas, que resistem ao enquadramento, são descartados como anomalias para que não ameacem o consenso. Dessa forma, o paradigma não só define o meio de resolver os problemas, mas também os problemas que convém serem resolvidos. Com o tempo, o acúmulo de anomalias origina crises. O volume ou a relevância das questões sem resposta rompe o consenso.  Formam-se grupos dissidentes a procura de novos fundamentos para obterem explicações. Inicia-se o entrave entre aqueles que não querem abrir mão das respostas dadas pelo paradigma vigente e aqueles que se preocupam mais com as respostas não dadas.

O conflito, que pode ser longo, só termina quando um novo paradigma, capaz de responder a maior parte das questões novas e antigas, é adotado. Como o novo paradigma representa uma nova visão de mundo e não um simples conjunto de soluções parciais, ele corresponde a uma revolução. Fruto da luta para destronar seu antecessor, o novo paradigma já se estabelece com ferozes defensores. Segue-se um novo período de ciência normal que tenta aperfeiçoar o novo paradigma, resolver problemas de acordo com ele, encontrar anomalias, desprezá-las, até que o ciclo recomece.

As revoluções científicas não são frequentes, o que demonstra a resistência dos cientistas à mudança. Essa resistência já foi observado por outros autores antes de Kuhn. Em suas obras, Charles Fort a chamou de ciência dogmáticaCharles Fort. O Livro dos Danados. São Paulo: Hemus, 1980. e Francis Bancon de idola tribus:

O intelecto humano, quando assente em uma convicção (ou por já bem aceita e acreditada ou porque o agrada), tudo arrasta para seu apoio e acordo. E, ainda que em maior número, não observa a força das instâncias contrárias, despreza-as, ou, recorrendo a distinções, põe-nas de parte e rejeita, não sem grande e pernicioso prejuízo. […] Esse mal se insinua de maneira muito mais sutil na filosofia e nas ciências. Nestas, o de início aceito tudo impregna e reduz o que segue, até quando parece mais firme e aceitável.Francis Bacon. Novo Organum. Livro I, XLVI.

A ciência normal de Kuhn, dogmática de Fort e idola tribus de Bacon serão referenciados em nosso site como conhecimento estabelecido. O termo expressa a tendência natural dos paradigmas de desprezar o que desconhecem ou não explicam. Foi o conhecimento estabalecido que, mesmo diante dos fatos, fez resistir a concepção geocêntrica de Ptolomeu contra a heliocêntrica de Copérnico, condenando Giordano Bruno à fogueira e obrigando a retratação humilhante de Galileu, que quando solicitou aos Inquisitores que olhassem pela luneta, viu eles simplesmente se negaram, alegando que ela estaria adulterada ou enfeitiçada para desvirtuar o homem do caminho da verdade.

Alguns podem imaginar que a  intolerante sociedade geocentrista da época de Galileu é diferente da que existe na nossa moderna idade da razão. Crasso engano. Apenas o paradigma mudou e a intolerância continua, se não com a fogueira, com o ostracismo e a ridicularização, como pode constatar qualquer um que já tenha tentado defender abertamente ocorrências insólitas. Mesmo a recusa em olhar pela luneta permanece, na forma de evitar conhecer e analisar evidências.

Ao nos referirmos ao conhecimento estabelecido, contudo, não desmerecemos as conquistas do atual paradigma. Ele, de fato, consegue explicar e entender de forma consistente uma parte importante da realidade. Reconhecemos esse valor e intentamos contribuir para o seu aperfeiçoamento. O termo, assim, não tem qualquer conotação perjorativa, incorpora tudo aquilo que a sociedade reconhece como parte da realidade, mas destaca sua tendência natural de desprezar o que não enquadra em seus conceitos.

Francisco Saiz

FICHAMENTO

Data: 20100715.

TAGS: Análises, Ciência.

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